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Blog EntryFeb 10, '08 2:24 PM
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Raymundo Silveira

 

Meu neto, Lucas, tem dezessete anos e adora o avô. Na sua imaturidade, achou que seria um belo presente de aniversário, inserir o nome dele (no caso o meu) como verbete da Wikipédia. Como é um expert em informática, mas analfabeto em maldade humana, entendeu que qualquer pessoa poderia receber tal homenagem, desde que tivesse escrevinhado algumas linhas. Não sem muita razão, pois viu lá o nome de gente conhecida dele, mas com quase nenhuma notoriedade.

 

Eu, com pós-doutorado em maldade humana, mas semi-analfabeto em informática, forneci a ele a lista dos inexpressivos prêmios que recebi, de Junho de 2006 até hoje (10 de Fevereiro de 2008), período em que competi, de fato, em concursos literários. Cuidava que se tratava de algo virtual; sem muito valor real; uma brincadeirinha...

 

Um cidadão português que, ao que tudo indica, é uma espécie de Capo di tutti Capi da Wikipéda, achou por bem excluir o meu nome, alegando, sem qualquer tipo de prova concreta que: As evidências me fazem acreditar que seja um artigo de vaidade... criado pelo próprio Raysilveira...” Tirante a assertiva maldosa e leviana (“as evidências me fazem acreditar que seja um artigo de vaidade... criado pelo próprio Raysilveirara”), concordaria com a decisão dele, haja vista o meu não merecimento. Mas não se limitou a isto. Antes, fez questão de me execrar e humilhar publicamente. Então, submeteu, durante uma semana, o meu nome a um jogo de cartas marcadas, para que os seus subalternos, além de votarem pela minha exclusão, escrevessem um comentário abaixo da lista dos sufrágios.

 

Vejam bem: Tudo isto aconteceu sem eu tomar qualquer conhecimento prévio. Soube de tudo, casualmente, ao consultar a página com o meu nome.

 

Uma senhora, Dona Eunice poe - não sei por que o sobrenome com minúsculas; seria vergonha de dizer que é neta do homem? –, além de verbete da enciclopédia, é uma das escolhedoras de quem deve ficar ou sair. Até aí, tudo bem. Tem todo o direito de ser eleitora do empreendimento e da proposição do cidadão lusitano, seu chefe.

 

Mas não se limitou a isso. Escreveu no espaço destinado aos tais comentários, que tinha ido conferir as assertivas do superior. Antes, porém, escreveu uma fileira de kkkkkk, que, na simbologia da Internet brasileira, equivale a uma gargalhada sarcástica.

 

Antes desta ocorrência, minha única interferência ateve-se a pedir ao chefe para retirar o meu nome, sem necessidade de votação. Fiz-lhe ver que tal procedimento só era compatível com os processos medievais do Santo Inquérito... da Inquisição. Aliás, pior, pois naquele, o réu tinha o direito de defesa que eu não tive. O cidadão fez ouvidos de mercador.

 

Irritado e magoado com o deboche da senhora Nice poe (ou Eunice), escrevi lá:

 

Dona Nice e os seus kkkkkk

Guarde os seus kkkkkk, D. Nice. Não os desperdice por tão pouco... Serão eles compatíveis com alguém que é verbete de Enciclopédia? Expresse-se pelo menos em Português, Dona Nice. De qualquer maneira, muito obrigado. Seu comentário sarcástico me serviu de lição. Espero que a senhora nunca venha a ser acusada de palhaçadas  e que ninguém vá olhar você e os seus kkkkkk. E se for, que os evite escrever também. Grande abraço Raymundo Silveira.”

Ao que ela respondeu:

 “Por gentileza, deixe em paz a minha discussão, pois vc já disse o que queria dizer, eu já li, e foi o suficiente! Seja maduro e saiba aceitar que na vida nem tudo ocorre como gostaríamos que ocorresse. Manter a postura é mais digno do que agir da forma que está agindo. Se está sentindo-se humilhado com a votação, deixe quieto, pois quanto mais se manifestar com falta de educação, mais hits no google apareceram mostrando esta sua atitude pouco meritória. Vá fazer outra coisa mais útil. Atenciosamente, --Nice

Ou seja, Dona Nice poe não está mais subtraindo o direito de defesa do réu: está pedindo que ele também se abstenha de se defender, em seu próprio benefício.

Obviamente, tive de ir à tréplica:

“Dona Nice.

É muito fácil mandar a vítima de humilhação se calar quando somos o algoz. Se já fui humilhado uma vez, não importa quantas mais o serei, D. Eunice. Não tenho mais nada a perder. A senhora, não sei. Mas pode crer, vou ficar lhe filmando. Não só eu como muita gente. Ao menor deslize indigno de uma mulher Verbete de Enciclopédia, a senhora será execrada também. A Wikipédia não é a única arena. Nem na Internet nem fora dela Dona Eunice. Raymundo Silveira”

Daqui em diante, este testemunho perde o valor histórico, pois não se sabe se o que Dona Nice poe escreveu foi uma resposta ou uma parábola. Além disso, foi subitamente suprimida a minha única possiblibilidade de defesa: a palavra.


(*) Essa historinha é mais do que um desabafo. É, principalmente, um testemunho histórico para registrar o processo de escolha de quem é ou não é digno de figurar numa Enciclopédia, nos primórdios da Internet.

 


Blog EntryDec 21, '06 6:49 AM
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Que horas são? Ora, ainda faltam trinta e cinco minutos de insônia para as quatro horas que EU não dormi nesta madrugada dura como um abstrato travesseiro de concreto porque estava ansioso, pois ontem à tarde só ganhei vinte e cinco por cento dos cem que esperava. Faltam poucas horas para o amanhecer e mais de vinte e quatro para o amanhã ser outro dia igual a este que se seguirá a outro e mais outro e mais outro para EU continuar esperando, sem pensar noutra coisa a não ser em obter mais lucro, maior comodidade mais vantagens... Faltam sete horas para EU perguntar ao vento se EU posso ou não fazer alguma coisa ante o pedido (mudo) de socorro daquele companheiro vitimado pela injustiça. Faltam quarenta e cinco minutos para EU conferir ao telefone se aquele dinheiro foi depositado na minha conta bancária, como me prometeu fazer, sem falta, o colega endividado. Que horas são? Ora, são horas de vencer! Mas são também horas de despertar as imagens oníricas coaguladas em cochilos de sono líquido e intermitente, à espera de um tempo onde será abolido tudo o que emergirá da vigília como realidade plena, e o que a realidade plena esconderá nas dobras sinuosas da vigília; são horas de separar, com precisão, centímetros de esperanças de côvados de quimeras; de ignorar se estou acordado ou sonhando, porque haverá uma noite de nada onde ignorarei as tardes de tudo; são horas de indagar a mim próprio se as rotinas e as obsessões do cotidiano pertencem mais ao ritmo da vida, ou se é a vida que pertence ao ritmo do dia-a-dia, pois do contrário nunca saberei se foi ela quem me viveu ou fui eu que a vivi; se possuo, de fato, aquele saldo que está na minha conta-corrente, ou se é ele quem me possui, pois é sabido que o dinheiro é excelente escravo, mas péssimo senhor; são horas de sentar nos bancos dos jardins das praças públicas e conversar com outros homens e mulheres sobre os projetos para o futuro, enquanto não chega o dia de conversar sozinho sobre um passado perdido, sentado sobre um presente de pedra; são horas de sentir piedade dos miseráveis, de me indignar com a injustiça praticada contra outrem, cuidar de preveni-la e, uma vez concretizada, lutar para derrotá-la,  menos para receber incensos, aplausos, louvações, mas para que quando também estiver avassalado no Reino da Iniqüidade, possa ter a coragem de suplicar que alguém interceda por mim; são horas de me rejubilar com a vitória alheia, alardeá-la, valorizá-la, engrandecê-la...  ainda que se trate da vitória de um competidor, e principalmente se for meritória e pouco reconhecida; são horas de não me regozijar com a derrota do outro, mesmo que seja meu inimigo; de não me deixar fanatizar por ídolos de barro, alardeadores de falsos valores, proclamadores da própria sabedoria, fazedores de ignorantes e de analfabetos funcionais, donos improváveis de verdades sem provas, ou com provas apenas em feitio de palavras; são horas de dispensar um pouco mais de atenção aos fantasmas que me visitam durante as madrugadas transfundindo lembranças, transplantando saudades, ou até mesmo mergulhando o meu cansaço em banheiras intangíveis  repletas de sangue, suores e lágrimas; são também horas de me levantar mais cedo a fim de assistir aos primeiros clarões do arrebol de um novo dia, nascendo junto com o Sol nascente. São horas, enfim, de correr em busca das horas perdidas e de jurar que não perderei jamais as horas ainda por virem...

 


Blog EntryDec 21, '06 6:49 AM
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Que horas são? Ora, ainda faltam trinta e cinco minutos de insônia para as quatro horas que EU não dormi nesta madrugada dura como um abstrato travesseiro de concreto porque estava ansioso, pois ontem à tarde só ganhei vinte e cinco por cento dos cem que esperava. Faltam poucas horas para o amanhecer e mais de vinte e quatro para o amanhã ser outro dia igual a este que se seguirá a outro e mais outro e mais outro para EU continuar esperando, sem pensar noutra coisa a não ser em obter mais lucro, maior comodidade mais vantagens... Faltam sete horas para EU perguntar ao vento se EU posso ou não fazer alguma coisa ante o pedido (mudo) de socorro daquele companheiro vitimado pela injustiça. Faltam quarenta e cinco minutos para EU conferir ao telefone se aquele dinheiro foi depositado na minha conta bancária, como me prometeu fazer, sem falta, o colega endividado. Que horas são? Ora, são horas de vencer! Mas são também horas de despertar as imagens oníricas coaguladas em cochilos de sono líquido e intermitente, à espera de um tempo onde será abolido tudo o que emergirá da vigília como realidade plena, e o que a realidade plena esconderá nas dobras sinuosas da vigília; são horas de separar, com precisão, centímetros de esperanças de côvados de quimeras; de ignorar se estou acordado ou sonhando, porque haverá uma noite de nada onde ignorarei as tardes de tudo; são horas de indagar a mim próprio se as rotinas e as obsessões do cotidiano pertencem mais ao ritmo da vida, ou se é a vida que pertence ao ritmo do dia-a-dia, pois do contrário nunca saberei se foi ela quem me viveu ou fui eu que a vivi; se possuo, de fato, aquele saldo que está na minha conta-corrente, ou se é ele quem me possui, pois é sabido que o dinheiro é excelente escravo, mas péssimo senhor; são horas de sentar nos bancos dos jardins das praças públicas e conversar com outros homens e mulheres sobre os projetos para o futuro, enquanto não chega o dia de conversar sozinho sobre um passado perdido, sentado sobre um presente de pedra; são horas de sentir piedade dos miseráveis, de me indignar com a injustiça praticada contra outrem, cuidar de preveni-la e, uma vez concretizada, lutar para derrotá-la,  menos para receber incensos, aplausos, louvações, mas para que quando também estiver avassalado no Reino da Iniqüidade, possa ter a coragem de suplicar que alguém interceda por mim; são horas de me rejubilar com a vitória alheia, alardeá-la, valorizá-la, engrandecê-la...  ainda que se trate da vitória de um competidor, e principalmente se for meritória e pouco reconhecida; são horas de não me regozijar com a derrota do outro, mesmo que seja meu inimigo; de não me deixar fanatizar por ídolos de barro, alardeadores de falsos valores, proclamadores da própria sabedoria, fazedores de ignorantes e de analfabetos funcionais, donos improváveis de verdades sem provas, ou com provas apenas em feitio de palavras; são horas de dispensar um pouco mais de atenção aos fantasmas que me visitam durante as madrugadas transfundindo lembranças, transplantando saudades, ou até mesmo mergulhando o meu cansaço em banheiras intangíveis  repletas de sangue, suores e lágrimas; são também horas de me levantar mais cedo a fim de assistir aos primeiros clarões do arrebol de um novo dia, nascendo junto com o Sol nascente. São horas, enfim, de correr em busca das horas perdidas e de jurar que não perderei jamais as horas ainda por virem...

 


Blog EntryApr 4, '06 6:29 PM
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Ray Silveira

 

“Ce qu'on aime avec violence finit toujours par vous tuer”.

 (Guy de Maupassant: La Nuit)

 

Devia calar, mas não ouso. Abomino o silêncio como quem sente terror de um enterro prematuro. Me comporto tal qual um criminoso impune cuja glória é se vangloriar da própria impunidade.“Vai chover: o céu tá tão preto!” “Mais preta, desgraçado, está a tua alma no Inferno”. Foi um sonho quase real... Me preocupei por uns tempos. Depois esqueci. Em um mundo empestado de palavras acordadas, seria insensato deixar-me impressionar por meia dúzia de vocábulos adormecidos. Poucos meses mais tarde voltei a sonhar: “Vai chover: o céu tá tão preto!” “Mais preta, desgraçado, está a tua alma no Inferno”. Era católico, cumpridor dos deveres religiosos. Confessei-me. Não vejo motivo para preocupação. Sonhos acontecem. A ciência já demonstrou... Não houve ciência nem meia ciência: continuei a ter o mesmo sonho. A escutar a mesma voz pronunciando as mesmas palavras. Passei a atribuir às minhas confissões sacrílegas. Não tinha coragem de confessar um vício terrível: a prática do sexo oral. Voltei a me confessar e, desta vez, contei tudo. Fui absolvido e prometi nunca mais esconder pecado algum. Sob pena de a absolvição se tornar inválida. Vá em paz e não tornes a pecar. Pequei. Precisava pecar. Nunca fui amado. Quando o amor não existe, o sexo é o lenitivo que subsiste.  Amargura infinita. Sensação de me encontrar sozinho num deserto, sem nada, no rumo de nada. Doía-me a ânsia do absurdo, precisamente por ser absurdo. Pungia-me a impossibilidade de ser outro, exatamente por não ser possível. E os sonhos continuaram. Um amigo me levou a um Centro Espírita. A amizade sem interesse é rara, mas existe. E quando se manifesta deveria comover o coração daqueles que só provaram a mesquinhez das falsas amizades. Descobri que não existe pecado. Não existe Inferno. Os sonhos são espíritos malignos. Prometeram exorcizá-los. Deixei a Igreja Católica e me tornei espírita. Continuei a praticar a aberração. Só que a minha era mais aberrante do que as “aberrações normais”. Os sonhos prosseguiram e viraram rotina. Quase não os temia mais. Os hábitos se modificaram. Abandonei o espiritismo e me envolvi com a magia negra. Durante os rituais havia sacrifício de animais. Me tornei especialista em matar galinhas pretas, enquanto bebia o sangue. Que descia na minha garganta com a fluidez de uma sinfonia e se ramificava até as ambiências mais recônditas das minhas entranhas. Nutria-me exclusivamente disto. Cheguei a ponto de não me satisfazer mais: comecei a desejar o dos humanos. Especialmente de jovens. Mantive a prática do sexo oral. Percebi que este hábito moderava um pouco a fome. Passei a freqüentar bancos de sangue. Salivava abundantemente ao ver os frascos. Não tive coragem. Eram os anos 80. A AIDS uma peste desconhecida. As transfusões eram feitas sem exame prévio. Medo de contágio. Pressentia também que se bebesse diretamente do frasco não me saciaria. E a vontade redobrava. Numa incerta manhã, ao fazer a barba, o espelho não me refletiu. Pouco depois passei a ter aversão a alho. Mais tarde, a crucifixos. Foi horrível. Incapaz de aceitar o inaceitável. O irreal do que não podia ser real. Desespero. Tive de trocar o dia pela noite. O normal pelo anormal. A vida pela morte. Os atos sexuais se tornaram compulsivos: único refrigério para aquele tormento. As parceiras pareciam ou fingiam não desconfiar...  Tentei o suicídio várias vezes. Fracassei em todas. Não sentia medo de morrer. As tentativas eram concretas, mas não se consumavam. Sentia-me um hiato maldito entre o que não fui e o que serei. Despido e disperso, cogitei desesperado: nasci sem pedir e morrerei querendo ou não. O mais irônico de tudo é querer e não poder. Descobri, aterrorizado, que para criaturas como eu, somente um método funcionaria: a transfixação do coração por uma estaca pontiaguda. Jamais ia conseguir... A dor seria insuportável... O golpe tinha de ser rápido e certeiro. Exigia frieza sobre-humana, mesmo se a vítima fosse outra pessoa. A ânsia de sangue se tornou incontrolável. Como só aliviava através do coito oral, passei a praticar sexo grupal. Duas prostitutas numa praia. Noite sem luar. Orgia. Surgiram assaltantes. Tive de correr. Corri para o amanhecer. Mais tarde soube que as duas foram violentadas e, depois, assassinadas através de facadas nos órgãos genitais. Não foi difícil me localizarem. Excetuando a covardia, não fui acusado de crime algum. Álibi perfeito. Houve um período em que as mulheres passaram a tomar pílulas anticoncepcionais numa quantidade assustadora. Fenômeno paradoxal: a diminuição da libido foi minha, não das usuárias. Mas a avidez de sangue triplicou. A obsessão por jovens voltou a me atormentar. Passei a rondar escolas noturnas. Havia uma dificuldade suplementar: como identificar quem me interessava, de fato. Espreitei banheiros, revolvi refugos, observava hábitos... Corria perigo. Então, tive uma idéia melhor. Disfarcei-me de parteiro... Algumas casas de parto me aceitaram, pois eu não exigia qualquer direito trabalhista. Só me alimentava quando me deixavam sozinho com as parturientes anestesiadas... Escolhi plantões noturnos, quando médicos e enfermeiras cambaleavam de sono. Preferia sempre os partos mais complicados, demorados e onde houvesse possibilidade de maior hemorragia. As de primeiro filho eram minhas... Só minhas. Esta foi a única exigência: precedência sem cedência. Ó madrugadas ternas, maternas. Ó maternais maternidades... As noites passavam as horas esperando o dia e o fim dos meus repastos. E eu passava os dias esperando passarem as horas para repastar à noite. Enquanto isso, o tempo preguiçava e me enchia de tédio. A perspectiva do declínio das tardes era o único alívio. Bêbado noturno, cuja ressaca diurna só amainava ante a expectativa da próxima bebedeira. Não me julguem por antecipação. Meus princípios religiosos não permitiriam praticar atos abomináveis contra um semelhante. Consumia aquele sangue por imperiosa necessidade. Agia como se comungasse. 24 de Dezembro de 1988 em mim e na folhinha da parede. Um sábado. Maldita noite de Natal. Duas primíparas mal iniciando o trabalho de parto. Todo o pessoal louco para passar em casa a meia noite. Deixaram-me sozinho. Me senti num festim romano. As duas evoluíam normal e lentamente. Quando a dilatação alcançou os oito centímetros, pus em salas vizinhas. Apliquei as anestesias como se bebesse um aperitivo. Jamais tivera uma ceia natalina tão farta... Dei o talho no vinte pras oito de cada uma. Nasceram os bebês. Preste o banquete. De súbito, entrou o diretor. A perplexidade o deixou mudo por uns instantes. Logo se recuperou. Retire-se! Sou forçado a abafar, em nome da reputação desta casa. Nunca mais ponha os pés aqui ou em qualquer outro hospital. Será preso imediatamente. Não haverá condescendência. Embora tenha o diploma cassado, hei de denunciá-lo... Em meados do ano seguinte um escândalo abalou Fortaleza. O noticiário girava praticamente em torno disto. Uma prostituta vampira fora presa. Fui visitá-la. Reconheci-a de pronto. Tínhamos tido uma relação oral pouco tempo antes daquele primeiro sonho. E do desejo insaciável de sangue. Então, descobri a origem do meu mal. Eu só fazia sexo com mulheres menstruadas... Ou paridas...

 

04/04/2006

 


 
MOTEL
 
Ray Silveira

Erano sposati da più di cinque anni. Matrimonio in crisi. Si trovavano in quella fase quasi disperata, nella speranza di salvare il rapporto. Pensarono a tutto… Le creatività non bastavano mai. Entrambi scrittori di romanzi e racconti erotici. Il suggerimento è partito da lei. Chi sa se quella non sarebbe la soluzione giusta! Sarebbe l’ultimo tentativo. Conoscevano altre coppie di amici che migliorarono il rapporto proprio in questo modo.

Alle quattro di un sabato pomeriggio, loro sono usciti, ognuno per conto suo. Lei ha usato la Honda e lui la Vectra. Intendevano incontrarsi dopo le dieci di quella sera per provare qualcosa di nuovo, mai sperimentato prima. In quello spazio di tempo mentre fossero separati, ognuno dovrebbe creare la propria fantasia. Si sono precedentemente messi d’accordo soltanto per l’orario e luogo esatto dell’incontro. Lui sarebbe arrivato per primo, dopodiché tutto diventerebbe frutto delle fantasie.

Lui è partito in macchina senza sapere nemmeno dove andare. Dopo girare qualche chilometro, ha deciso di andare a trovare una coppia di amici. Parlavano delle solite cose che dicevano due uomini e una donna giovani, in un pomeriggio di sabato: banalità. Non potevano parlare di cose comuni ai tre, poiché agli uomini piaceva parlare di calcio e alla donna, chiacchierare di telenovela e di bella casa.  
  
La moglie, invece, aveva bene deciso in mente dove doveva andare. E’ andata pure lei, a casa di una amica divorziata. Il marito non la conosceva. Sono uscite qualche minuto dopo. Sono andate a fare quello che faceva le donne giovani con tanti soldi, in un sabato pomeriggio. Non bisogna dire che si sono date a fare shopping.

Prima di recarsi al Center, hanno deciso di passare in un sex shop. L’amica divorziata ha capito l’intenzione dell’altra e ha deciso darle una mano. Aveva più esperienza.

Il marito e la coppia di amici sono rimasti lì a bere. Dopo un po’, cambiarono argomento. Al posto delle banalità, cominciarono a parlare di letteratura. Invece di temi brasiliani, subentra gli americani. Non Poe ma Henry Miller. Al posto di “Tropico di Cancro” hanno passato a “Nexus”, Plexus” e “Sexus”. Tutti erano d’accordo che, dopo Miller, il mondo non poteva più essere lo stesso.  Le cremagliere del tema, sempre lubrificate dai piccoli sorsi de Logan, si incastrano come il concavo nel convesso. Per tutto il resto del tempo.

L’alcol è una forma di siero spontaneo della verità. Dopo la terza dose ha confessato. Prima all’amico e poi alla moglie di lui, quello che pianificava per quella sera. Meglio dicendo, quello che non ancora pianificava, poiché, semplicemente, non li veniva niente in mente. La copia, all’inizio hanno fatto belle risate, poi, a un tratto marito e moglie sono rimasti pensierosi, mentre si guardavano di traverso. “Puoi lasciarci qualche minuto da soli, forse troveremmo una soluzione per il tuo problema.” 

Le due amiche arrivarono stanchissime. Si tuffarono in piscina mentre facevano due chiacchieri. L’argomento non era molto diverso di quello che si facevano un po’ lontano da lì. Amadeus, il maggiordomo, la metteva tutta per servirle bevande e “canapè”.

Dicevano le cattive lingue che lui aveva una storia con la padrona.   
Puntualmente alle dieci, il marito arrivò al Motel scelto per quell’incontro e avvisò al portinaio che aspettava la moglie. Li lasciò una busta chiusa per consegnarla al suo arrivo, contenendo le seguenti istruzioni: non potremmo vederci. Tutto avverrà al buio. Niente domande, nessuna parola. Saremmo come due strani. Ci comporteremmo come se fossimo sordi e muti. Il portinaio t’indicherà la stanza in cui mi trovo. Entri senza bussare. 
 
La moglie è arrivata mezz’ora dopo e ha aperto la porta. La camera era immersa nel buio completo. Passò un po’ di tempo per abituare la vista. Dal marito vedeva soltanto l’ombra. Appena è entrata, lui s’è affrettato a spogliarla con una violenza che lei sconosceva.

Cominciò a fare lo stesso con lui e posizionò il di dietro come solitamente facevano. Qualcosa calda e morbida se insinuò tra le sue natiche e poi se fermò. Due sorprese l’attendevano. Non era da lui fare così. Andava subito al dunque. “Sta cercando di essere paziente e creativo”, pensò. “Meglio così. Forse mi eccito di più”. C’era un’altra stranezza. Era assurdamente grosso. “Forse sta usando un pene artificiale. Non aveva bisogno, giacché ne portavo uno in borsa”.
     
Siccome sembrava di non aver spazio per una buona accomodazione, lei afferrò le due natiche, e cercò di aprirle meglio. Il pene penetrò per un po’. L’impressione che aveva era di una palla da tennis al posto del glande.

Quel immenso volume, mai provato prima, accarezzava il bordo dell’ano. Dal meato scendevano lunghi filamenti di muco, rendendo le carezze più morbide, scivolanti, deliziose. Sembrava un lubrificante naturale. Entrambi tremavano dal desiderio. 
    
Lui forzò un po’ di più. Non avanzò nemmeno un centimetro. Cercò di rilassarsi e sollevò un po’ di più il sedere. Ora percepì che le estremità cominciavano a cedere e sentì dolore. Cercò di allontanarlo. Lui non permise.

Sono rimasti in quella posizione per cinque minuti circa. Solo allora, il glande riuscì pareggiare l’orifizio. Non penetrò ancora.  Lei allungò le mani dietro e cercò di toccare i testicoli. Solo allora ebbe la certezza. Non era suo marito. Cercò di scappare, lui trattiene le anche con fermezza e la immobilizza. Le tira a sé e con un solo impulso fa la testa attraversare lo sfintere. Un grido di dolore. Era troppo tarde per recedere.
      
Si affacciò sul bordo del letto come se dovesse prendere qualcosa per terra. Quel movimento succhiò tutto il pene dentro di sé. Come se ci fosse un vigoroso vacuo. Allora si lasciò andare completamente. Così cominciarono le sospinte.

 All’inizio erano lenti e soavi, quasi ferme. Poi con la violenza dei disperati dai desideri. Lei si dona totalmente e chiedi di più… Rauca, tremolante… Anche disperata. In quell’istante sentì un enorme volume di liquido tiepido e denso, schizzare nel profondo del suo ventre.

Il marito accende le luci. Anche lui godeva. Ma si trovava a una distanza di cinque metri.
Le luci se spensero ancora. Lo strano sparì.
 
Nota: Lingua madre portoghese. Possibile errore. (Pardon).
Ray Silveira
 
 

Blog EntryOct 14, '05 1:21 AM
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Ray Silveira

 

Coçar. No princípio era o verbo. Depois se fez carne. No começo era uma comichinha gostosa daquelas de regalar o sujeito e arregalar o olho da rua. De inveja. Uma coceirinha faceira implorando cafunés ou coçadinhas nas costas, e um bicho-de-pé de estimação assistindo a tudo, louco de ciúmes. Aos poucos, foi tomando conta dele por dentro e por fora, feito uma única abelhinha assanhada, as companheiras correndo atrás, querendo acompanhar. Mais tarde, legiões de formigas-de-roça e pragas de pulgas: pulgas de gente, pulgas de rato, pulgas de cachorro, pulando e pululando, primeiro em marolas, a seguir em ondas, vagalhões, preamares, marés crescentes, marés-cheias, mares bravios, maremotos...

 

Começou pela cabeça e foi mudando de lugar: passou para o pescoço, daí para a ponta da espinhela, espalhou-se pelos peitos, deu uma escapulida até os ombros, desceu pelas costas, perpassou pela cordilheira dos Andes do espinhaço em direção aos Apeninos das nádegas, entrou pelo cu do pinto, saiu pelo cu do pato, senhor rei mandou dizer que parasse nos quartos... Não parou. Saiu pela boca, deslocou-se, para as virilhas desceu por uma perna, subiu pela outra, até estacionar no pinto mesmo. Quem via aquilo, no início morria de rir, mas depois chorava... De rir também.

 

Não ria, leitor! Esta história não é inventada.  E o exagero galhofeiro do parágrafo precedente foi proposital. Uma tela branca num pano de boca encarnado dum teatro preste a exibir uma tragédia para, através dum contraste, evidenciar o ror de sangue a escorrer das múltiplas chagas abertas pela coçadura sem fim. Ou então, uma gargalhada nervosa dum palhaço, trabalhando de dor, diante duma platéia ávida de divertimento, para ganhar o remédio da filha moribunda.

 

Começou há trinta e quatro anos e as marcas ainda não se despediram. Até hoje, o vazio de tudo ainda pesa que nem chumbo sobre uma plenitude de nada. Os surtos eram espaçados. Passavam um ou mais anos sem se manifestarem e voltavam mais fortes. Aquela intermitência foi-se amiudando. De anual passou a semestral, quadrimestral, trimestral. Mais tarde, o intervalo diminuiu para um bimestre, um mês, uma quinzena, uma semana, até que se tornou de todo dia o dia todo. A doença terminou por incapacitá-lo para qualquer tarefa produtiva. Numa certa manhã, foi atacado subitamente e com uma intensidade nunca vista, não poupando centímetro quadrado de couro. Até as plantas dos pés e as palmas das mãos, comumente não afetadas, neste dia foram acometidas. Desesperado, correu para o Rochedo das Agulhas. Foi lá onde perdeu, e jamais recuperou, a sua poesia.

 

A cerca de um quarto de hora de caminhada, a partir do vilarejo, havia um rochedo escarpado à beira-mar. Não se tratava de uma rocha qualquer. Era muito alta, quase talhada a pique, de difícil acesso e só tinha sido enfrentada, meia dúzia de vezes, por alpinistas experientes. Além de íngreme, apresentava, da base ao ápice, reentrâncias, nichos, lojas, e anfractuosidades, revestidos por segmentos pontiagudos semelhantes a agulhas. Os alpinistas escalavam sempre pela face Norte, pois esta continha menor quantidade de superfícies aguçadas. Ele escolheu o lado Sul. Inicialmente, se atirou contra o sopé do penedo com a violência autodestrutiva dos desesperados. Friccionou as costas contra as agulhas e começou a escalada. Quanto mais as extremidades do pedregulho penetravam na carne, mais se esfregava. E subia, subia, subia... Havia momentos em que parava para descansar um pouco, mas era em vão: só sentia a dor das carnes sendo dilaceradas, como se feras famintas o estivessem devorando. E um desejo enorme de acabar depressa aquele tormento. Pela primeira vez, pensou em se matar.

 

Depois destes instantes de dor, a comichão voltava com uma força muito maior, e a vontade de se atritar contra a rocha superava o impulso de morte. E ele tornava a subir e a friccionar o corpo, com uma volúpia compulsiva, contra as áreas corrosivas e perfurantes do penhasco. A meio caminho do topo, a crise amainou outra vez e ele se examinou superficialmente. Nem sequer os dedos das mãos e dos pés possuíam mais fragmento de pele. As pernas, os joelhos, os cotovelos não passavam de ossos expostos a sangrarem. Os braços, o ventre e os genitais, em carne viva.

 

Pela dor, adivinhou o estado das costas e da face. E a coceira voltou mil vezes mais voraz. Tinha vontade de resistir àquele suicídio literalmente involuntário, mas era em vão. Continuou a subida. Prosseguia, impotente, a se destruir contra as agulhas impiedosas das pedras. Seguia travando aquele combate inútil entre o desejo de não sentir dor e a compulsão de se coçar. Ansioso por atender àquelas exigências conflituosas. A se debater entre dois impulsos antagônicos. Thanatos e Eros exigindo, cada qual, o seu quinhão...


 




 

 

 

 

 

 

 


Blog EntryOct 13, '05 11:37 PM
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Ray Silveira

 

Ao decidir me oferecer como voluntário para uma experiência médica, jamais me preocupei em medir conseqüências. Para os jovens, pouco importa se o Céu incendeia, ou se a Terra implode. Só interessa o fogaréu dos sonhos... O troar da explosão dos ideais. Embora os primeiros logo se transformem em pesadelos, e os estilhaços dos segundos caiam sobre a própria cabeça. A idéia, pelo menos na minha ótica, era disponibilizar o meu fígado para uma única biópsia, por ter sido, no passado, acometido de uma doença grave: a hepatite C, e ter ficado curado. A equipe era constituída de vários cientistas, mas só me recordo dos nomes de três: o do chefe, doutor Amazeus, o da doutora Águeda, responsável pela colheita do material, e o do doutor Herculano. Este último viria a se tornar figura de destaque nessa história. Então, não haveria como esquecê-lo. Havia outro que não cheguei a ver. Soube da sua presença na equipe através do doutor Herculano. Tratava-se do anestesista: doutor Flexa da Silva, também conhecido por doutor Flexinha.

 

A imagem da médica ficou-me gravada eternamente na memória. Até porque, foi a figura mais presente e mais próxima de mim.  Não era uma bela mulher. Tampouco era feia. Aparentava quarenta anos. Tinha uma cabeça pequena, em relação ao corpo, nariz aquilino e lábios proeminentes, resultantes de acentuada prognatismo. Olhos bem abertos, vigilantes... Atentos. Como se espreitasse constantemente uma presa. Ao empunhar qualquer instrumento cirúrgico, fazia com tamanho vigor que, em vez de mãos, parecia possuir garras.

 

Infelizmente, o material da biópsia resultou inadequado. Menos por imperícia da doutora, do que pela qualidade do fixador enviado pela Patologia. Lamentamos muito. Como chefe, sugiro que se submeta a um novo exame. O seu gesto nobre, ao colaborar com a ciência, não deve se tornar em vão. Dentro de uma semana o fígado estará completamente regenerado.  Não haverá qualquer prejuízo. O único incômodo: deixar-se puncionar uma vez mais pelas habilidosas mãos da doutora Águeda.

 

Eu mesmo ignoro a motivação lógica que me levou a assumir aquele papel de animal de laboratório. Se é que houve tal motivação. Tenho de ser sincero: não se tratou de nenhum “gesto nobre para colaborar com a ciência”, como falou o médico - e estou certo de que ele sabia disso -, nem muito menos o “troar das explosões dos ideais”, conforme eu próprio simulei parecer no princípio desta narrativa. Quem sabe, tudo não passasse de uma necessidade mórbida de auto-afirmação. Ver o meu nome em destaque nos jornais da Terra inteira, se daquela experiência resultasse algum fato inédito... Uma descoberta de importância proporcional à da penicilina. Então, desperdiçar a oportunidade, sobretudo depois de ter passado pelo incômodo da primeira tentativa, seria insensatez. Portanto, nem carecia daquele discurso. Seria eu o primeiro a reclamar a segunda ferroada. Estava imota a mó do meu moinho. Precisava de um rebojo de emoções.

 

Só que desta vez, nada transcorreu igual à primeira. Houve várias tentativas frustradas, antes da doutora acertar com o local exato onde deveria enfiar a agulha. A dor foi intensa. E ouvi comentários assustadores de outros membros da equipe, pois acompanhavam tudo pelo ultra-som. Veja, está sangrando muito. Você deve ter puncionado a artéria. Melhor parar. O risco de hemorragia pós-operatória é alto. Eu estava disposto a ser herói, não cadáver. Daria tudo para ser famoso, mas preferia a insignificância de um zémané em cima do chão, à notoriedade de cem mil Pelés dentro dum caixão...

 

Um minuto de fisionomia fala mais do que arrobas de palavras. Desta vez, quem veio me dizer o resultado do exame foi a doutora Águeda. Não precisou falar nada parecido com “infelizmente”. O hálito da médica recendia a fracasso. Por favor, doutora, me poupe... Não pretendo ouvir qualquer explicação. Mas... Não tem mas. Já escutei mas demais. Aqui se encerra a minha... “Colaboração com a ciência”. Que tal ganhar trinta mil dólares? Quê? Isso mesmo, que tal trinta mil dólares em troca de só mais uma tentativa? Eu ganhava trinta mil dólares... Por ano... Por que acha que me pagariam isso, se já me submeti a duas outras sem receber um centavo?

 

Bem, o senhor era um voluntário. Não precisávamos informá-lo sobre a existência de um Fundo Internacional financiando as pesquisas. O interesse no seu fígado é evidente: não conhecemos outro caso de cura absoluta de hepatite C. Perder o senhor seria praticamente o fim... Pelo menos para esta equipe... Receberei em espécie e adiantado, estou certo? Certíssimo, embora particularmente não ache seguro conservar esta quantia durante e imediatamente depois de um exame como este. Apesar de relativamente seguro, não se pode garantir com absoluto rigor a ausência de complicações... Bem, de fato, a senhora está certa... OK. Então, peço depositarem na minha conta bancária o valor equivalente em moeda nacional. Confio na senhora. Promete se encarregar desta etapa da operação? A doutora Águeda Prometeu.

 

Com efeito, nos dias atuais, a biópsia hepática é um procedimento relativamente simples, seguro e indolor. Guiado pelo ultra-som, o operador introduz, através da pele, uma agulha fina que corta ou aspira uma quantidade mínima de fígado para exame microscópico. Geralmente, é realizada com anestesia local. Foi assim que procederam comigo nas duas ocasiões anteriores. Desta vez foi diferente. Talvez, por causa da ameaça de complicações durante o último procedimento, decidiram me anestesiar. Ao despertar encontrava-me completamente só, deitado num leito de hospital. Tinha os pés e as mãos atados às grades da cama através de correntes. Sentia dores terríveis no fígado e um cheiro de terror. Um curativo, ensopado de sangue, recobria o local da intervenção.

 

Mantive-me nesta posição enquanto se passavam minutos arrastados de preguiçosas horas. Num indeterminado instante de um ignorado dia, entrou a doutora Águeda seguida de auxiliares. Um destes, tomou o meu braço, puncionou uma veia e instalou um soro. Só me lembro até aí. Ao recuperar a consciência me encontrava num ambiente que, a princípio, me pareceu um mundo extraterrestre. Pessoas estranhas murmuravam palavras ininteligíveis e se movimentavam ao meu redor. Sequer me olhavam. Dia e noite, para mim, deixaram de existir. Desta vez, havia outras pessoas deitadas a me olharem com curiosidade e comentavam entre si qualquer coisa que não pude distinguir. Todas estavam vestidas de branco e eu insistia em associar gestos, atitudes, movimentos, semblantes e imagens, a filmes, programas de televisão e livros onde já assistira ou lera sobre certas experiências relatadas por indivíduos supostamente redivivos. As dores no fígado eram insuportáveis. O curativo se encontrava encharcado de sangue. Gritava, mas só um desespero mudo escutava.

 

Daí em diante fiquei sozinho e não me deram mais anestesia. Sempre seguida de alguns homens, entrava, com certa periodicidade, cujo intervalo não tenho como estimar, a doutora Águeda. Quatro deles me continham pela força, enquanto ela arrancava o curativo e introduzia um longo ferro no lado direito da minha barriga, e só retirava quando trazia, na extremidade, um fragmento de coloração púrpura, gotejando sangue. Cobria, apressadamente, o local e saía do recinto, me deixando apavorado e desesperado de dor.

 

Não sentia fome. Porém, um doloroso vazio no estômago reclamava a ingestão de algum alimento. Calculo em mais de vinte e quatro horas o tempo passado sob o efeito desta estranha sensação. Como se adivinhasse, alguém pôs na minha boca um canudo do qual suguei um líquido muito remotamente parecido com suco de laranja. Não era. Tratava-se de um sabor fora do comum. Um gosto amargo de nunca mais...

 

Na ocasião seguinte, mal distingui a doutora, comecei a gritar. Não grite! Assim será pior pra você. Não tema. Seu fígado será preservado. Só intervimos ao ter certeza, da regeneração hepática, através do ultra-som. Não devia falar sobre isso. Se o faço, é apenas para acalmá-lo. Quanto aos seus gritos, não preocupam nem um pouco. Ninguém pode escutar. Esta sala é à prova de som. Herculano, dê-me a broca saca-bocados...

 

Depois fiquei sabendo, através deste médico, o doutor Herculano: já havia mais de trinta dias que me encontrava naquelas condições. Completara também um mês sem ingerir alimento algum, com exceção daquele líquido insípido. Mais tarde, ia sendo transportado não sei para onde, numa cadeira de rodas, empurrada por enfermeiros, quando um médico de cerca de trinta e poucos anos me interpelou em inglês: "Where are you?" "In a hospital, I suppose". "Where are you going?" “I’d like to go home, but I’m not sure about that". "Home?" E se ria. "When do you intend to go home?" "Yesterday night". "Yesterday?" E soltou uma gargalhada só comparável com aquelas que os demônios devem disparar no inferno ao sentirem prazer diante do sofrimento dos sentenciados. "I’m sorry, Doctor. Pardon me for my mistake, please. I intended to say ‘Tomorrow night’. I’m too weak to talk so well." Já ia longe. Nem se interessou em escutar as últimas palavras...

 

Não assisti à próxima sessão de tortura. Desfaleci, mal vi entrarem a doutora Águeda e sua equipe. Ao recuperar a consciência, encontrava-me sozinho e doía como nunca. Fiz um esforço para abrir os olhos e percebi estar enfaixado. E a faixa encharcada de sangue, principalmente do lado direito do abdome. Só então, notei a presença de outra pessoa: o doutor Herculano. O auxiliar da doutora Águeda se encontrava junto ao leito. Por favor, doutor... Psiu, não fale. Estou aqui para ajudar. Não acreditei, todavia, fingi. Afinal, não tinha nada a perder.

 

Foi através dele que fiquei sabendo onde estava, o nome dos outros membros da equipe, há quanto tempo me encontrava naquele inferno e o motivo real de tudo aquilo. Confia em mim. Não posso prever quanto tempo. No entanto, juro que em breve sairás daqui. Tenho contas antigas a ajustar com a Águeda. Tu serás o meu leitmotiv... Uma espécie de álibi para me safar dela sem sofrer conseqüências. Além do mais, serei beneficiário de um dispositivo legal chamado delação premiada. Mais que isso, serei uma espécie de benemérito. Tu servirás de testemunha... Como e quando farei o que te prometi, não posso dizer agora. Escuta bem: tudo estará acabado se abrires o bico para aquela bicuda da Águeda... Jamais troquei contigo sequer um cumprimento, entendeste bem? Por enquanto, confia em mim.  Aliás, não tens alternativa senão confiar. E saiu sem se despedir.

 

Não sei precisar. Devo ter padecido mais umas quatro ou cinco sessões de tortura. Passei a desconfiar da conversa do doutor Herculano. Cheguei mesmo a cogitar de falar sobre isso com a doutora Águeda. Não o fiz. Somente por causa disso estou relatando essa história. Na manhã da última sessão de tortura, Herculano apareceu sozinho. Ao vê-lo entrar suspirei de alívio, embora não visse motivo algum para me aliviar naquele instante, tamanhas eram as dores. Seguinte: toma este spray. Esconde bem. Está cheio de pó-de-mico. Quando a Águeda se debruçar sobre ti, asperge os olhos dela.

 

Segura firme e não erra. Do contrário será o meu fim. Do teu, não será o fim, não, será o zero absoluto. Nada sobrará de ti. O Amazeus, em pessoa, te transformará em grânulos menores do que os deste pó. Entendeste? Depois de muita insistência consegui convencer o chefe. Não suportarias mais, aquelas biópsias a não ser sob anestesia geral. Então, consegui introduzir um anestesista na sessão desta tarde. Será o doutor Flexa da Silva, o Flexinha. Ao atirares o pó nos olhos da bruxa voadora, ela ficará cega. Somente eu serei capaz de socorrê-la. O Flexa me ajudará. Pedirei para ele injetar na veia, duas ampolas de analgésico. Já estão preparadas. Só que substituí por solução de estricnina, conservando o rótulo. Não é apenas para a tua satisfação que estou contando isso. É para confiares em mim e não vacilares no momento de agir... Como já falei, a tua ação será decisiva...

 

No começo, declarei que a minha motivação maior ao oferecer o meu fígado singular, para experiências médicas, tinha como único objetivo chamar atenção, atrair os holofotes da mídia, enfim, aparecer. Depois do que passei, isso se tornou irrelevante. Quem ia, de fato, se beneficiar com a descoberta da cura da hepatite C, se acaso a experiência tivesse tido êxito, seriam os meus torturadores. Quanto a mim, obtive mais do que pretendia. Pois meu nome se tornou imortal. Então, fui previdente, sem querer. Por um mero acaso, sou o signo da prudência...

 

Simbolizo o homem que, para beneficiar a humanidade, enfrentou o suplício inexorável, embora o resultado imediato tenha sido insatisfatório. Para a aplicação da justiça, os meios são mais importantes do que os próprios resultados. A maioria dos mártires não alcançou os ideais pelos quais se sacrificou. Nem por isso são menos reverenciados, nem menor a grandeza do seu martírio. A grande luta das conquistas civilizadoras e da propagação de seus benefícios à custa de sacrifício e sofrimento é o maior mérito, senão o único, da condição humana. Duvido que o meu heroísmo seja esquecido durante os próximos milênios. Bem melhor do que ganhar míseros trinta mil dólares, vocês não concordam?

 

Escrevi essa história, ainda deitado no meu leito de tortura, enquanto esperava ajuda externa. Como você, leitor, cuidei que terminava aqui a minha tragédia. Não termina. Herculano acaba de entrar. O homem é uma pilha de nervos. Mal consegue balbuciar:

 

- Estamos acabados... O Flexa não injetou estricnina na veia da Águeda... Eu mesmo sou o culpado... Substituí a buscopironamina por ketamina...

 

Para os leigos: o idiota do Herculano trocou o analgésico por um anestésico...

 

 

13/10/2005

             


Blog EntrySep 17, '05 9:41 PM
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Ray Silveira

 

Digam que não estou. Intransitivamente. Se exigirem um objeto abjeto, digam que estou um crápula. Se reivindicarem complemento, digam que foi fixado nas enzimas catalisadoras da minha sordidez. Se, ainda assim, perguntarem pra onde fui, respondam que saí aquariando fevereiros de gandaias pela vida afora. Não estou para os vendedores nem para os seus cobradores, telefonemas enfadonhos ou declarações amorosas, falsas ou verdadeiras, para homens atordoados de trovões, ou mulheres resplandecentes de relâmpagos, para crianças chorando com fome ou gritando de dor, para os seus pais aflitos envoltos no manto da desgraça e recobertos com o pálio da miséria, para banqueiros, salafrários, santos, agiotas, agitadores, pacifistas, pedintes, prêmios de loteria, automóveis (do ano, do mês, do dia, da hora ou do minuto), amigos prestantes ou afoitos desafetos afeitos a afetações de amizades, para luares de prata ou aluás elaborados com o néctar dos deuses do Olimpo, para cavalheiros, cafajestes, gentis-homens, ou crápulas como eu, para o papa, para o bispo, para o pároco e para todo o clero, para o dalai lama em suas vestes vermelho-alaranjadas e para o dalai lodo vestido de verde musgo, para os loucos de paixão ou de loucura mesmo, para os bêbados, para os ébrios de ambições e os sóbrios consumidos nas chamas das águas ardentes da abstinência compulsória, para a puta mais safada ou para as freiras cobertas, da cabeça aos pés, com o hábito da caridade, para leides dai, ou para lordes dão, para príncipes, ou para molabentos, para seres imaculados recendendo a sândalo, ou lazarentos exalando, em vida, os fedores da decomposição cadavérica. Digam que não estou pra “seu” ninguém. Exceto para a senhora morte.

 

17/09/2005

 


Blog EntryAug 25, '05 9:14 PM
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Ray Silveira

 

Eu jurava que era eu. Tinha tudo para ser eu: o mesmo porte, a mesma silhueta e a mesma sombra magra. Eu morava no décimo andar, mas podia ver tudo. Estava sentado numa pedra, o cotovelo apoiado na coxa, a cabeça abaixada e a mão direita sustentando a mandíbula. Exatamente, como no “O Pensador”. Não me contive. Desci correndo as escadas. Sequer paciência para esperar o elevador.  Frustração, ódio, quase desespero: não era eu. Nem parecia comigo...

 

Me meto em situações ridículas: interrogo transeuntes desconhecidos, sinalizo e paro transportes coletivos, telefono para estranhos. As pessoas riem. Certamente cuidam que sou louco, por procurar aleatoriamente alguém numa cidade tão grande quanto esta. Afinal, são três milhões de habitantes. Mas, como poderia fazer de outra maneira? Não tenho meu endereço... Sim, já pus anúncios em jornais, inclusive com a minha foto.  Nenhuma pista convencional.

 

Outras vezes, caminho à toa pelas ruas observando lugares onde poderia ser encontrado: bares, livrarias, açougues, bibliotecas, curtumes, cinemas, cerâmicas, parques de diversões e matadouros. Nada. Desconfio que me escondo de mim. Um dia desses contratei um detetive. O relatório dizia isso mesmo. Quando não há vestígios de uma pessoa desaparecida, é quase certo que utiliza toda a energia e capacidade mental para esta única finalidade: esconder-se.

 

Numa certa madrugada me alevantei, apanhei a maleta velha, examinei mais uma vez o conteúdo e saí. Podia ser a hora que costumasse sair de casa. Para não ser visto. Para não se encontrar comigo. Moro nas proximidades da rua Treze de Maio, entre Assunção e Floriano Peixoto. Caminhei em direção ao centro da cidade. O modo como segurava a maleta parecia suspeito. Pressionava-a contra o peito, com ambos os braços, como se protegesse um bebê.

 

Na Praça dos Voluntários, entrei na Secretaria de Polícia e procurei como se estivesse buscando um alfinete. Continuei a caminhar pela General Bezerril, para a Praça do Ferreira. Prossegui pela rua Major Facundo até o Passeio Público. Vasculhei cada metro quadrado Depois me masturbei mais uma vez na calçada do hotel. Mas sem largar a maleta. Segui, em linha reta, pela rua Castro e Silva, caminhando pela calçada da Santa Casa, onde entrei. Examinei todos os leitos das enfermarias de homens. Nos fundos do hospital, uma agência funerária. E anexo a esta, o necrotério. Era o último lugar onde faltava procurar. Havia um único funcionário de plantão. Naquele dia, esperei até que raiasse o dia. Depois da longa espera, a desinformação: “Não, não consta nada nos nossos registros. Pesquisei de 1945 para cá. Nenhum cadáver deu entrada que pudesse ter sido o senhor”.

 

25/08/2005

 

 

 

 

 

 

 


Blog EntryAug 11, '05 9:21 PM
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Ray Silveira

 

"Tú y tu desnudo sueño. No lo sabes.
Duermes. No. No lo sabes. Yo en desvelo
y tú, inocente, duermes bajo el cielo.”


(Gerardo Diego: Insomnio)



Não durmo. Nunca dormi. Ou, pelo menos, não me lembro de ter dormido. Às vezes, gotas de cochilos caem sobre mim, e é graças a elas que ainda estou vivo. Não dormir é como escutar, todo tempo, o estrondo silencioso do tempo. Ou ser o sobrevivente único de um mundo que há muito não existe mais.  Tolero o incêndio do dia, mas abomino o rescaldo da noite. Não apenas abomino, como também sinto pânico quando se aproxima.

 

O dia queima depressa, então a angústia de existir dói, mas é efêmera. A noite cozinha lentamente, pois nela está concentrada toda a tragédia da condição humana. Por este motivo foi feita pra se dormir, pois, do contrário, poucos suportariam viver sob o influxo perpétuo de tamanho infortúnio. Sou, portanto, uma das raras pessoas condenadas a arrostar este horroroso ror de trevas escaldantes. Para mim, o dia é o pouco de vida que ainda resta. A noite, a face exposta do passado. Embora também não seja a morte, pois nesta não existe mais o suplício do não dormir. Assim sendo, a noite nem é vida nem é morte: é um hiato diabólico entre uma e outra.

 

Os cochilos são minutos que passo na ante-sala da realidade e pelos quais pago, com pesadelos em pêlo, caríssimos estipêndios. Todos os dias, antes de ser dia, me levanto e saio para caminhar. Impossível permanecer no leito com a companheira, escutando o ressoar do seu sono como um fole a aquecer o ferrete em brasa para me marcar ao amanhecer, como se eu fora um bovino. Ou como se estivesse há vários dias sem me alimentar, devido à falta de comida, e visse alguém se banqueteando e depois atirando fora os restos, sem que eu pudesse apanhar um pouco.

 

Pensando melhor, preferia sentir fome e não ter o que comer, a não sentir sono tendo um leito de príncipe para me deitar. A fome dói no corpo. A insônia tortura o espírito e a mente. Com o passar dos dias, a fome tende a se atenuar, mesmo sem a ingestão de alimento algum. A insônia, ao contrário, se agrava cada vez mais, conquanto combatida à custa de estupefacientes.


Caminho sozinho, às vezes antes do nascer de um Sol nascendo morto. Enquanto isso, um turbilhão de imagens assola-me a imaginação. Faço um esforço inaudito para afastá-las, mas é inútil. São lembranças obsessivas de fatos pontuais, aparentemente banais, sucedidos num passado remoto, que para outras pessoas nada significariam. Para mim são crimes perpetrados recentemente, e a humanidade inteira me olha estendendo, na minha direção, o dedo em riste.

 

 

 


Blog EntryAug 5, '05 3:06 PM
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Raymundo Silveira

 

Poucas pessoas sabem da sua existência. Ou melhor, muitos sabem, mas fingem não saber. Mesmo assim, é um dos nossos maiores escritores. Quem ainda não o conhece, não sabe o que está perdendo. Araque é o autor mais lido da língua portuguesa. Muito mais do que um reles best-seller. Trata-se de um fenômeno quase sobrenatural. Durante um ano convivi com ele diariamente. Nesse curto tempo tive o privilégio de constatar a sua popularidade, pois assisti pessoalmente ser assediado por mais de 51 mil leitores. Houve períodos em que, apenas num único dia, presenciei cerca de setecentas pessoas disputarem, no tapa, os seus textos. Observem que não estou dizendo que Araque foi lido por míseros 51 mil leitores durante um ano. Disse, sim, que somente eu assisti a essa façanha. Como há uma legião de pessoas a seguir-lhe os passos, é impossível calcular, sequer aproximadamente, o efetivo do seu fiel exército de fãs.

 

Alguém poderia indagar: qual seria o segredo deste “Paulo Coelho” virtual? (Falei em Paulo Coelho, mas bota coelho nisso). Não sei. Mas posso garantir que há clientes para todos os gostos. Ou seja, qualquer tipo de tema que ele aborda, é buscado, com sofreguidão. Da crônica, à poesia. Do conto a uma simples frase de efeito. Uma demanda mais do que impressionante. Um autor fenomenal cuja concorrência nem a Bíblia é capaz de enfrentar. Há fatos ainda mais impressionantes: é o mais eclético dos autores, não apenas em se tratando de gêneros literários, como também com relação aos temas abordados. Pornografia, erotismo, esoterismo, auto-ajuda, crônicas do dia a dia, microcontos, poemas concretistas, modernistas, clássicos, cordéis e até “não-poemas”, são tratados com tanta familiaridade que causaria inveja a qualquer polígrafo.

 

Contudo, o que mais impressiona em Araque é o seu espírito de renúncia. O seu desprendimento quanto aos bens materiais. Considerando que a procura por suas obras é milhares de vezes maior do que a demanda pelas do Coelho já citado, era pra ser um homem biliardário. Senão vejamos. Como já me referi, somente eu o vi ser assediado por 51 mil leitores em apenas um ano. Então por que as suas obras não vendem tanto? Afinal estimando em pelo menos 20 reais o preço de capa de cada um dos exemplares dos seus livros, as vendas alcançariam a soma de um milhão e vinte mil reais.

 

 Supondo que outras, digamos, míseras cinco pessoas também tenham presenciado o mesmo milagre, ele teria alcançado a inédita proeza de faturar cinco milhões e cem mil reais. Vejam bem, isto em apenas um único ano.Ou seja, uma receita bruta de quatrocentos e vinte e cinco mil reais por mês. Portanto, quase o valor total do salário de um deputado. Então qual o motivo de ele não ser tão rico? É simples: Araque só escreve na Internet. Recusa-se terminantemente a publicar livros de papel. Portanto, um homem desprendido. Um pobrezinho de Assis das letras. E ainda dizem que este é um país de gente gananciosa, vejam só...

 


Blog EntryAug 1, '05 6:04 PM
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Raymundo Silveira

I

O arruamento se limitava a um terreno não maior do que trezentas braças de fundura por cem de largura.  No centro, uma orada tão pequena que só ouvia missa aos domingos quem chegasse primeiro. A populacinha habitava casebres uniformes e velhos, alguns em ruínas. Faltava tudo: das mezinhas pra cortar uma dor de cabeça a um jornal velho pra limpar a bunda. Só não faltavam as vendas de cachaça, farinha, milho e feijão. Eram duas. A principal ficava frente a frente com dois paus semi-apodrecidos, cruzados e plantados defronte à capela, e aos quais chamavam cruzeiro. Era a mais sortida porque, diferente da outra bodega, vendia também querosene.

São coisas futuras. No tempo do pai do meu bisavô não existia nenhuma arruação, senão uma Casa Grande onde se abrigava um formigueiro de gente que atendia pela graça de família e compreendia quatro gerações. Da mãe do dono da casa, passando pelos filhos legítimos, noras, genros, netos, bisnetos e os descendentes adulterosos. Como as meninas se casavam, mal escorriam os primeiros pingos de moça, cada uma das proles correspondia a um pelotão. Era um homem muito rico. Dele descende uma legião de pessoas que até hoje povoa boa parte daquela região que pega do pé da serra e vai aos confins do maciço do Baturité. Seu maior patrimônio era constituído, além da Casa Grande, por engenhos de açúcar, senzalas, gigantescos latifúndios e vários magotes de escravos. Acumulou tudo isto graças a um regime feudal e escravocrata. E, sobretudo à monocultura da cana de açúcar.

Meu bisavô já não possuía tanto, mas ainda dava, com sobra, pro sustento da família e pra sair por aí cavalgando, chupitando, proseando e, dizem que, povoando. Tinha muito poder político e acoitava cangaceiros de Lampião. A fortuna, a fama e a valentia do coronel eram lendárias. Uma das minhas tias-avós contava que numa incerta feita viajou pelo sertão e conheceu, numa das casas onde se hospedou, um preto velho, neto de escravos. Conversa vai, conversa vem, dona se mal pregunto dadonde a sinhora é? da Serra do Baturité, por quê? da Serra do Baturité? intão a sinhora deve ter ouvido falar no coronel Honorato. Não só ouvi falar, como conheci ele a mulher dele e conheço os filhos, filhas, netos e bisnetos, morei na Casa Grande, aquela que ficava perto do morro "Cabeça do Honorato", o ponto mais alto da serra, cujas terras eram todas dele, e muitas coisas mais eu também sei, mesmo porque sou uma das suas netas. O quê, dona, a sinhora é neta do coronel Honorato? dona, meu pai era jagunço dele e dizia que o coronel tinha mais poder do que o presidente da província, pois apesar de ser contra o governo, só num fazia chover, mas trovejava e o tempo ficava nublado.

Tudo isso virou pó. O pai do meu bisavô nem sonhava com futuridade. E jamais lhe passou pela cabeça que negro pudesse virar gente. Então, quando conheci meu avô, ele já tinha mais de setenta e era um homem pobre. A parte da herança que lhe coube foi uma diminuta herdade cuja única produção ainda era a cana. Mas com uma diferença: dela não se fabricava mais o açúcar refinado, uma vez que este já era produzido pelo monopólio das grandes indústrias. O produto agora era uma coisa chamada rapadura.

Era este o tempo da arruação da qual se falou no começo desta história. A casa do meu avô ficava um pouco mais para levante. Estava situada num dos terrenos mais altos da esmigalhada sesmaria da herança paterna. Era uma casa simples, de alvenaria, ladrilhada de tijolos. Não era forrada. E a área construída talvez não excedesse os duzentos a duzentos e cinqüenta metros quadrados. Havia, na frente, uma escassa calçada de pedras e um terreiro de onde se podia avistar boa parte dos domínios, igualmente escassos, do meu avô, dentre os quais um açude, um pequeno curral habitado por meia dúzia de reses, a casa de farinha e o Engenho. De rapaduras. De vez em quando, chegavam, maçarocadas de cana. A gente tinha de ficar olhando de longe, porque a palha causava ruçara. Uma coceira tão danada chega o couro do sujeito ficava cheio de calombos. Encarnados como tomates maduros.

Quando o conheci, meu avô era casado pela terceira vez. E as duas ex-mulheres tinham morrido de parto. Morrer de parto foi, pelo menos quanto à primeira, um eufemismo para ignorância, pois minha avó teve uma simples retenção e faltou uma pessoa cujos membros superiores não tivessem sido duplamente amputados para meter uma das mãos no útero e arrancar o resto. Já a segunda foi de um desvio da natureza que lhe implantou num local muito baixo algo com muito sangue e deveria estar mais acima. Morreu à míngua daquilo que é hoje uma coisa tão besta a ponto de as barrigudas já entrarem no consultório, doutor o senhor faz cesaro? cesaro pra quê, minha filha? porque eu quero fazer um desligamento e... Pois a madrasta do meu pai morreu à falta deste tal cesaro que hoje qualquer zémané faz de olho fechado, de costa ou de frente, nu ou vestido, com precisão ou sem precisão...

Foi ele, meu pai, quem me contou. Tinha médico na cabeceira da cama. Doutor, num deixe eu morrer porque sou uma mulher nova, tenho muita vida pela frente, a cumade Zazá pariu vinte e dois e nem morreu, por que logo eu que preciso cuidar do meu marido, da casa, do serviço da cozinha, da costura, e até pra botar comida pras galinhas e pros porcos tem de ser eu... Ainda falava forte. O sangueiro escorria quiném riacho e o doutor só fazia olhar e pegar na munheca dela. Aos poucos foi ficando mais branca e falava mais fraco. Doutor num deixe eu morrer, porque tenho uma ninhada de filhos pequenos pra criar e não podem ficar sós neste mundo, como os meninos vão se vestir, comer, ir pra escola, cortar as unhas, se assear, doutor num deixe eu morrer... num deixe... eu... morrer... num deixe... eu morr..., até que a fala se acabou junto com a sangueira, agora só escorria uma água de dentro dela e um suor frio do rosto e ela ficou da cor de cal, depois deu um suspiro comprido e pronto... À falta dum mísero cesaro...

Alcancei o fazimento de rapaduras. Os molhos de cana transportados em lombos de burricos eram descarregados na sala das máquinas e eu nunca entendi o motivo daquele plural, pois só enxergava uma espécie de catapulta de metal contendo dois enormes cilindros rolando sobre si mesmos e entre os dois se inseriam as canas para serem esmagadas. Um dos pormenores que primeiro chamou minha atenção foi a ausência da mão num dos braços de um operário. O que foi isso cumpade? ora, patrãozinho, eu tinha chegado do arruado onde fui bochechar um trago de pinga mode passar o diabo duma dor de dente e engoli a infeliz sem querer, e vim direto moer cana... Tá bom cumpade, já sei, precisa mais contar nada não. Tava na cara. Foi como estar vendo a mão do desgraçado sendo engolida entre aquelas duas cepas de aço, depois eu soube que se não fossem os companheiros terem arrancado à força, o resto do braço também teria sido mastigado e deglutido pelo monstro, e eu fiquei pensando quem teria comido aquelas rapaduras misturadas com carne, sangue, ossos e infelicidade humana.

II

O sumo das canas escorria, através de um sistema de calhas de madeira sustentado, ao longo do trajeto, por forquilhas de marmeleiro, desviava-se para a esquerda, depois para a direita e seguia em linha reta para o tanque de desidratação, que era um enorme caldeirão fervente. Através de uma janela situada na parte posterior da sala das máquinas eliminava-se o bagaço que se amontoava lá fora, até ficar rente com o teto e ia servir de combustível para realimentar a fornalha que aquecia o tal caldeirão.

Havia alguns operários portando um longo cabo de madeira na extremidade do qual se inseria uma espécie de alguidar feito de folhas-de-flandres e servia para retirar as impurezas flutuantes durante a cozedura do suco. O cheiro do vapor que se desprendia durante esse cozimento, ainda hoje está impregnado nas minhas ventas. Depois do caldo de cana parcialmente desidratado, o resultado era uma massa pastosa, escura, viscosa, pardacenta quiném bosta e pegando fogo. Esta borra era, então, espalhada sobre enormes grades de madeira ou formas, cujos moldes vazios, eram separados uns dos outros através de septos e dentro dos quais, depois do esfriamento, tomavam o formato de rapaduras.

Essa mesma massa poderia se transformar também noutro tipo de rapadura menos consistente, mais úmida, de coloração esbranquiçada, temperada com erva-doce e cravo-da-índia, através de uma batedura semelhante à das lavadeiras ao sovar as roupas antes de serem enxaguadas, pra sair boa parte da umidade, só que neste caso específico, sobre uma superfície de madeira contendo os ditos temperos e cujo produto acabado se chamava batida, exatamente devido ao seu mecanismo especial de manipulação. Esta era a única rapadura que eu comia porque era deliciosa, especialmente se acompanhada de uma tora de queijo de coalho mole como manteiga, ou melhor ainda, como nata de leite socada com bastante sal.

Às vezes bebia também o caldo puro da cana aparado na ponta da calha, antes, portanto, de ser despejado na caldeira, era muito doce e tinha um sabor excelente, embora sendo bebido à temperatura ambiente, numa vasilha de metal, geralmente uma lata vazia de óleo do motor. Lembro que, numa ocasião, entornei um litro inteiro duma só vez, chega passei mal...

Numa certa manhã dum incerto dia meu avô mandou selar dois cavalos e o meu pai perguntou, papai pra onde o senhor vai? pras “Areias”, meu filho. “Areias” era um lugar distante umas boas quatro léguas. E pra que o senhor quer dois cavalos selados? porque o seu filho vai comigo, papai pelo amor de deus, meu filho nunca se escanchou nem em cabo de vassoura, que dirá em cavalo, nunca se escanchou, mas vai se escanchar hoje, macho na minha casa qui num se escancha em cavalo num é macho e tamos conversados, e o senhor num dê mais um pio, qui aqui não manda nada, pode mandar lá pras bandas das suas negas, quem manda aqui sou eu.

E lá se fomos meu avô e eu demandando as “Areias” quiném um Quixote de setenta e um Sancho Pança de sete, eu na frente e ele atrás, pra vigiar, como se quando o cavalo resolvesse desembestar, ele pudesse fazer alguma coisa pra me socorrer. Mas sabia o que fazia. Jamais foi um homem temerário, embora tivesse muita coragem e experiência de vida. Conhecia a cavalgadura, sabia que era mansa e não seria imprudente a ponto de pôr em risco a segurança do neto.

Pelo que me recordo, intuo, e presumo, meu avô e seus familiares, viviam exclusivamente do fabrico da rapadura, e dumas ralas colheitas de café. Quando morreu, eu tinha apenas oito anos, mas guardo estes pequenos episódios, a sua fisionomia, algo do seu temperamento e alguns hábitos. São, portanto, muito poucas as lembranças, não por me faltar este dom que Deus me deu: uma memória de elefante, senão pelos escassos contatos que tivemos, menos por desinteresse da minha parte ou da dele, do que por uma circunstância geográfica, pois morávamos a mais de sessenta léguas um do outro.

III

 

Por aqui a esta hora, o quéquiouve?  pois é, mano, vim me valer de ti, o caso é qui vendi duas vacas pro Chico Fortunato, ele ficou de me pagar na safra, eu esperei uma vez, duas e já vem aí a terceira e ele num me pagou ainda, e o pior é que soube, e é verdade mesmo, qui ele ontem tava arrumando as coisas pra se mudar pras Mutucas, talvez até já tenha idimbora, não sei,  e também não sei o quéquifaça, lá em casa hoje a mulher não botou nem panela no fogo... E você nunca cobrou? cobrar, cobrei, mas de que adianta cobrança de uma conta apalavrada, só de boca, num ficou nada escrito, jamais ouvi falar que ele tivesse fama de velhaco, já fazia mais de cinco anos qui morava aqui, num ouvi ninguém se queixar, por isso eu confiei e... Pera, vou lá na casa dele, pode ser que ainda não tenha idimbora, eu mesmo vou fazer esta cobrança e se encontrar com ele quero ver se num paga...

 

Esta fala se deu entre o meu avô e um irmão dele na manhãzinha de um domingo. Foi lá dentro, pegou a pistola da gaveta de cima do armário, tirou as balas e botou a arma no cós. Você tirou as balas pra quê? num é pra quê, é por quê, porque eu não vou matar um home por causa de duas vacas, e isso aqui é só pra assustar, você tá doido, se eu soubesse disso num tinha vindo lhe procurar, aquilo é cabra perigoso, dizem que já matou um lá pras bandas do Quixadá, aqui todo mundo tem medo dele qui se pela, pra falar a verdade, e aqui só pra nós dois, eu num cobrei mais porque num queria confusão, você quer ou não quer receber seu dinheiro, então se cale, deixe de conversa fiada, deixe comigo.

 

Ó de casa. Bom dia seu Bido, bom dia Fortunato, ouvi dizer que vai se mudar? é verdade seu Bido, aqui num dá mais pra mim não, já faz mais de dois anos qui planto e a colheita num dá nem mode comer, as vacas não tão dando mais leite e... Falar em vaca, Fortunato, você comprou duas do Nenén, prometendo pagar na safra e... É verdade seu Bido, e não paguei nem vou pagar porque... Não vai pagar? Vou não seu Bido, por três motivos, primeiro é qui num tenho o dinheiro agora, segundo... Num carece de dizer os outros dois, não, Fortunato, mas que você vai pagar, isso vai, vou não seu Bido. E foi andando de costas, meu avô atrás. Lá dentro, se abaixou, ainda de costas e ficou cascaviando dentro dum baú velho, foi quando meu avô puxou a pistola... Quéquéisso, seu Bido, carece disto não, tô só me abaixando aqui mode achar um restim de dinheiro qui tava guardando mode comprar uns cacarecos mode num chegar na Mutuca com as mãos abanando, mas como se trata do sinhô, um cidadão de respeito, vou lhe dar o dinheiro mode  pagar seu Nenén e...

 

Não é que fosse temerário ou gostasse de bravatas. Claro que meu avô não ia arriscar a sua vida, nem matar um homem por causa de duas reses, mas também não podia deixar de socorrer o irmão em apuros. Além disso, a formiga conhece o pau que rói. Que era destemido, ninguém pode negar. Afinal era filho dum homem que acoitava cabras de Lampião, era político da oposição de um governo truculento e, como dizia aquele preto velho, “só não fazia chover...”.

 

Ai, meu Deus do céu, meus filhos num vão pra Fortaleza, não, senhor... Em 1913 teve uma guerra no Ceará. Meu bisavô era marreta, partidário, portanto, da oposição ao rabelismo, capitaneado por Franco Rabelo, o novo chefe da província que representava os interesses do poder central presidido por Hermes da Fonseca. De um lado, as tropas “legalistas”, e de outro os magotes de jagunços. O comando da jagunçada rebelde ficava no Juazeiro do Norte e era encabeçado por Floro Bartolomeu, bafejado pela graça divina e abençoado pelo Padre Cícero Romão Batista. A revolta começou em 9 de dezembro de 1913, quando os jagunços invadiram o quartel da força pública e tomaram as armas. Falava-se que atacariam a Fortaleza. Os jagunços do meu bisavô já teriam ido se ajuntar aos do Cariri. Ele achou pouco e quis mandar também os três filhos homens para o combate.

 

Ai, meu Deus do céu, meus filhos num vão pra Fortaleza, não, senhor... Vão, senhora, quem manda neles sou eu, filho meu, sendo macho, tem de ir pra onde eu mandar, pra paz, pra guerra, pro Céu ou pro Inferno, assim seja preciso, senhor eu lhe imploro, pelos olhos de Santa Luzia, pelas sete chagas de São Francisco do Canindé, pela luz dos seus olhos, meus olhos quase num tem mais luz não, senhora, desde o tempo qui começou o diabo desta catarata infeliz, e vamos logo acabar com chororô, porque não adianta, e eles vão de qualquer jeito. O último ataque rabelista sucedeu em Fevereiro sob o comando de J. da Penha, que acabou morto na luta. Os jagunços já tinham ocupado um bocado de cidades e estradas do interior e se aproximavam da Fortaleza, forçando Franco Rabelo a renunciar a 14 de março de 1914, um dia antes do meu avô e dos seus irmãos desembarcarem na capital.

 

Tinha uma úlcera de estimação no estômago, desde quando era rapazinho e não cuidava dela, a não ser com a sua dieta predileta a qual consistia de feijão de corda machucado, por ele mesmo, no próprio prato, misturado com rapa de rapadura, ou até com rapa de rapa mole, se carecesse da primeira.


Pouco mais de um ano depois daquela minha estréia na equitação, ele se finou. Uma dor cansada começou, à boquinha da noite, na boca do estômago, lá nele, coitado, e como já estava acostumado a sentir e passava quando bebia umas goladas de leite, entornou litro e meio em menos de duas horas, mas desta vez não passou. Lá pra meia noite lançou umas golfadas pretas parecidas com borra de café e a dor cada vez era maior. De manhãzinha, a barriga tava mais dura do que tábua de passar roupa e a testa, quente como o ferro de esfregar nela, ao meio dia, as tripas não roncavam mais, o couro dos braços e das pernas estavam enrugados como os duma velha de cem anos, e ele suspirava curto e ligeiro como um cachorro quando acaba de correr atrás de caminhão. Sentaram ele numa cadeira e quatro homens, se revezando, levaram para o lugar mais perto de onde tinha médico... não botou na metade do caminho... Era o dia dois de abril do ano da desgraça de 1952.

IV

Dia de Finados. Meu pai, meus tios e tias passaram uma manhã inteira ajoelhados junto à sepultura do meu avô. Rezando e chorando sem parar. Enquanto eu e meus primos nos divertíamos ajuntando torrentes de líquidos quentes e viscosos, fundidos das velas acesas, e fazíamos, para brincar, bolinhas de parafina, que, para eles, eram esferas maciças, pesadas como o mundo, confeccionadas com a cera das almas e das saudades, para chorarem cada vez mais.

1952 - 1960. Oito horas, para um velho. Oito dias, para um adulto jovem. Oito anos, para um menino, na verdade. O que é a verdade? Pilatos devia ter perguntado também ao Homem da cruz: O que é a tristeza? O que é a alegria? Agora, havia outra Casa Grande. Não era uma réplica exata da do meu bisavô, nem ficava no mesmo local. Pertencia a um dos irmãos do meu avô. Foi lá onde aconteceram os melhores carnavais de que me lembro. Carnavais endogâmicos, se é que se pode falar assim, uma vez que todos os foliões eram parentes. Descendiam do mesmo homem que “só não fazia chover, mas o tempo ficava nublado e trovejava”.

Quem ia da Fortaleza se dava mais ou menos bem de viagem até rolar por três ou quatro horas na boléia de um caminhão ronceiro, ou assentado nos bancos de pau de um comboio arrastado por uma maria-fumaça do começo do século. Depois começava uma vereda que não ofereceria empecilho algum ao caminhante ou ao cavalgante se não fosse por um aclive, quase a pique, de légua e meia de extensão. Se estiava, o peregrino rezava. Mas se chovia, se valia. De todos os santos e de cada um dos seiscentos diabos e das freiras, como costumava dizer, sem nenhum ar de irreverência ou bom humor, outro velho tio.

Dum lado e outro do sendeiro nebuloso, mares de cana-de-açúcar, melhor dizendo, de cana-de-rapadura, que se estendiam até onde a vista alcançava. Os caminhantes não conseguiam passar lado a lado, senão em fileira indiana, o detrás aproveitando as pegadas do da frente para não pisar no lugar errado: uma odisséia no encalço, portanto. As horas menos inclementes para a ascensão eram as da tardinha. Quando se acabava a ladeira e se atingia as planuras, estava acontecendo o crepúsculo. Por entre as brumas do horizonte sumiam os canaviais e no lugar deles mergulhavam uns restos de Sol cujas cores iam mudando, pouco a pouco, do amarelo-ouro para uma tonalidade afogueada, até restarem apenas brancas nuvens bordadas de faíscas cor-de-rosa.

As festas não passavam de forrós, só que muito melhores do que os bailes de qualquer municipal, e ocorriam geralmente na nova Casa Grande. Cada dançador pagava dez mil réis. Serviços incluídos: cachaça à vontade, música, danças, namoros, se fossem com a cara um do outro, obviamente, iluminação a querosene, através de petromaxes, e tira-gosto de siriguela verde ou caju. Serviços excluídos: entrega em domicílio, quando o carnavalente pensava que cachaça era água e queria dar uma de dono do morro, ou se a sede era demais e o bebente temia que aquela adega fosse a última que restava na face da Terra.

Os músicos se resumiam a um sanfoneiro acompanhado de outros tocadores de instrumentos de percussão feitos de couro e um de triângulo, acompanhados por um crooner recrutado entre os próprios brincadores. O mais assíduo era o meu primo Luís Carlos, cuja voz de barítono desafinado estou escutando neste instante: "Ei, você aí / Me dá um dinheiro aí, / Me dá um dinheiro aí". Ou, "Ca, ca, careco / Cacareco é o maior, / ca, ca, careco / Cacareco, de mim ninguém tem dó". Mesmo contando com tão precária infra-estrutura, os organizadores caipiras daqueles bailes a fantasia quase medievos, conseguiam a façanha de arrancar mais alegria daqueles primos e primas, do que os desfiles das Escolas de Samba, dos milionários albergados nos camarotes da Marquês de Sapucaí. 

V

Sou filho de quem escreveu essa história. Ou essa miscelânea de histórias. Ele me pediu para pôr um ponto final. Decidi aceitar por várias razões, entre elas a motivação afetiva. Esta não é a principal. Aguardem um pouco. Mais adiante matarei a curiosidade dos leitores. Matar a curiosidade! O que seria da humanidade se este crime hediondo fosse cometido? Portanto, metáforas nem sempre são felizes.

 

Estou escrevendo sentado a uma mesa na varanda da Casa Grande. Da nova Casa Grande. A velha ainda subsiste. Na memória daquela multidão de descendentes do Adão, pai do Honorato, mas subsiste. Daqui, a paisagem é de tirar o fôlego. Do zênite até o horizonte o céu é azul. Mas de uma tonalidade diferente do azul-turquesa que se costuma fitar no firmamento num dia sem nuvens. Um dia como este. Trata-se de uma cor tirante para entre a safira e o anil, se estendendo por toda a abóbada celeste na amplidão do espaço diáfano, perdendo-se num apogeu sem limites e depois descendo e se esbatendo contra o marrom terracota do horizonte, configurando uma linha de confins quase precisos, como se separasse porções distintas de infinito. Como se separasse também as sucessivas gerações que contemplaram este mesmo panorama. Se acaso isso fosse possível.

 

Já ouvi dizerem: “quem sabe das coisas, só sabe porque está vivendo e vive sabendo mesmo sem saber que sabe”. Concordo só em parte. Como toda generalização, esta é descabida. Há quem vive sem saber se vive nem por que vive. Há quem, vivendo, não vive, por saber que a vida nada acrescentará às suas vidas. Existem também alguns que vivem, sabendo ser a vida uma só. E os supostos hiatos entre uma geração e outra não passam de pontuações artificiais na longa cadeia da existência. Pois a natureza não reconhece indivíduos. Estes seres estranhos que não passam de elos na enorme corrente das estirpes.

 

Estou aqui escrevendo essas idéias semi-sentimentais, sentindo-me sentado, não nesta cadeira, mas no topo do mundo. Na verdade, não passo de uma ínfima porção da extremidade da meada de uma linha sem fim... A natureza não se importa nem um pouco com a minha pretensiosa pessoa. Ninguém “É”. Todos “Estamos”. Ao mesmo tempo, todos “Somos”. Cada um de nós é ninguém, enquanto sujeito. Somos, porém, TUDO, enquanto espécie. E espécie privilegiada, pois detemos poder de vida e morte sobre a própria vida. Pelo menos daquela existente neste planeta. E até agora não existem razões objetivas para acreditarmos na existência de seres iguais a nós em qualquer outro lugar do universo.

 

Então, é uma ilusão concebermos essa história como se fosse de gerações. Não é. Trata-se da história de todos nós. O Adão ao qual me referi no começo, não estaria sequer mais próximo do que eu, da outra extremidade do fio da meada, se acaso ela existisse. Com efeito, nunca existiu Adão algum. A menos que assim chamemos um agregado de partículas.

 

Ainda haveria alguém esperando saber qual teria sido a razão mais importante que me levou a aceitar a tarefa de pôr este ponto final? Mas eu já disse! Releiam, por favor, o que acabei de escrever.

 

03/08/2005

 

 

 


Blog EntryJul 25, '05 6:34 PM
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Raymundo Silveira

"Caim respondeu: Não sei. Por acaso eu tenho que cuidar dele?"

(Gênesis, 4,9)

Um dos irmãos se vestia de relâmpagos. O que tu querias, monte de banha, te enxerga, cara, achava mesmo que essa mulher linda e gostosa ia ficar contigo, te olha num espelho, seu idiota gorducho, tu parece uma bola de quermesse, uma saca de estrume, um sapo... Prometeu, dezenove, cabelos e olhos escuros, alto, magro, musculoso, porte atlético, um Adônis. Epimeteu se vestia de trovões. Quase dois anos mais velho, gordo, baixo barrigudo, um batráquio. Miserável, te mostro do que sou capaz, nunca vou te deixar sossegado, vais me pagar ainda que seja no inferno.  

Pandora lindíssima. No semblante, eterno sorriso. O contorno do rosto, o roliço dos braços e das coxas, as curvas do corpo, pareciam talhados a cinzel por mestres da Renascença. Tez morena, da cor trigueira típica das raças meridionais da península. Lábios carnudos e sensuais. Nariz perfeito entre as duas maçãs salientes da face. Brilhantes olhos castanhos. O olhar sereno irradiava serenidade. Da porção superior da fronte, emergiam as raízes de uma basta cabeleira muito negra e sedosa. Vestia-se de estrelas.

A rixa vinha desde quando se entenderam por gente. A mãe morreu de parto de um terceiro. Natimorto. Epimeteu era o predileto do pai, embora este se esforçasse para não deixar transparecer. A discriminação comprometeu o equilíbrio da relação entre os filhos. Muito do excesso de peso do primogênito era conseqüência da compulsão paterna em alimentá-lo, pois via na obesidade uma manifestação de saúde e vigor físico. Servia-lhe de auto-afirmação. Ao contrário do irmão, Prometeu sempre foi esbelto. Ao saírem juntos, costumavam ser vítimas de assuadas por parte dos moleques. Olha lá pessoal, o gordo e o magro. Ambos se mordiam de ódio. O ressentimento de Epimeteu era maior, por representar a figura mais ridícula da dupla do cinema.

Para que servem os anos? Não sabiam. Entretanto, enquanto passavam, o irmão magro tirava partido da obesidade escandalosa do outro e passou a engrossar o coro de ultrajes. As humilhações faziam-no sentir discriminado e infeliz. Jamais teve namoradas. As aulas de educação física eram sessões de tortura. Para ele, anoiteciam dias e amanheciam noites. Então, preferia não sair do quarto. Tomava o desjejum e almoçava dentro. Jantar fora, nem pensar. Um velho de pouca idade. Ou um moço senil. Enfim, uma vida aleijada. Apesar disto (ou talvez por causa disto) o pai redobrava os “privilégios”.

Ao se saber alvo da paixão de Epimeteu, Pandora a princípio, se assustou. Depois, quis se divertir um pouco à sua custa: fingiu corresponder. O irmão, ao tomar conhecimento do namoro, decidiu: era a ocasião mais propícia para a grande desforra. Simulou não reparar e esperou que o outro se apaixonasse cada vez mais. Afinal, partiu para o ataque. Insinuou-se para Pandora e marcaram um encontro. Longe da vista do teu irmão, do contrário, nos mata, enlouquece ou comete suicídio. E se riu.

 O resultado desse encontro quase teve o desfecho profetizado pela moça, porém terminou conforme começou essa história.  Miserável, te mostro do que sou capaz, nunca vou te deixar sossegado, vais me pagar ainda que seja no inferno. O que tu querias, monte de banha, te enxerga, cara, achava mesmo que essa mulher linda e gostosa ia ficar contigo, te olha num espelho, seu idiota gorducho, tu parece uma bola de quermesse, uma saca de estrume, um sapo...  

O presente não há, porque é mais fugaz que o pensamento. Portanto, nenhum episódio chega, de fato, até ele. Ao acontecer, já é passado. O futuro também não, pois ainda não houve. Logo, só existiria o passado. Passado já é passado. Então não existe mais. Conclusão: não existe o tempo.

Mesmo assim se passou. Prometeu acumulou um vasto patrimônio. E se casou com Pandora. A hostilidade entre os irmãos evaporou. A amizade entre cunhado e cunhada se solidificou. E o excesso de gordura de Epimeteu se liquefez. Graças a uma operação no estômago. Agora, eram companheiros inseparáveis. Do episódio, do qual quase resultara um crime passional, nem sombra. Os três saíam pra jantar e se divertir. Só viajavam juntos.

Da antiga paixão do cunhado por Pandora, só restara uma tênue lembrança e os três a evocavam sorrindo. Prometeu tinha quarenta e dois quando sentiu os primeiros sintomas. A princípio as escleróticas ficaram levemente amareladas. Sobrevieram depois falta de apetite, febre, dores abdominais, emagrecimento rápido, coceira. Um médico amigo diagnosticou câncer do fígado e indicou internação imediata para avaliar a conduta a ser seguida. Preciso falar contigo, num local onde ninguém nos veja. Encontraram-se no escritório de Epimeteu após o expediente e se trancaram por dentro.

O que vou te contar somente eu e tu vamos ficar sabendo, a minha doença não tem cura, o câncer é primitivo do fígado e já se espalhou para os pulmões e para o cérebro, Pandora me engana com o meu médico e melhor amigo, descobri ontem à noite, ao abrir casualmente uma das gavetas, encontrei muitas cartas de um para o outro, começou há mais ou menos um ano, em várias, ele se refere a uma "caixa" que ela teria em seu poder, há recomendações explícitas e severas a respeito do cuidado a ser tomado quanto ao que contém, exige expressamente que a mantenha num lugar seguro, desconfio estar depositada no cofre forte de algum Banco, pois foi isto que o amante sugeriu noutra carta, estou disposto a seguir sua orientação profissional porque tenho de descobrir aonde querem chegar, se antes me acontecer o pior, prossegue com as investigações, não tenho idéia de qual seria a instituição onde a caixa deve se encontrar sob custódia, nem vou ter condições de averiguar, pois estou muito doente.

Jamais vou te deixar aos cuidados deste sacana. Espera, não terminei, não faz nenhuma diferença se eu ficar ou não sob os cuidados dele, consultei outro especialista e foi confirmado o diagnóstico, trata-se de câncer do fígado em fase terminal, assegurou-me que não tenho muito tempo de vida, preciso descobrir, meu único desejo é morrer sabendo tudo sobre a maldita caixa, ou pelo menos tendo a certeza de que tu saberás, só há uma maneira de conseguir isto, fazer com que os dois não desconfiem de nada, hei de tomar cuidado, um dia os ameaçarei, se me contarem tudo, ficarei calado, estou disposto a escrever uma carta de próprio punho isentando os dois de qualquer responsabilidade pela minha morte, para servir como prova na hipótese de surgirem suspeitas.

Contudo, se não me mostrarem, se não vir pessoalmente o conteúdo, todos ficarão sabendo que são amantes e premeditaram a minha morte, não é verdade, mas disponho de meios para incriminá-los, disto não tenham dúvida, no mínimo, ficarão sem minha herança, portanto, não adianta tentarem apressar a minha morte, pois já deixei providenciado para acontecer exatamente assim, então, só te peço isto, quando eu morrer, abre a minha boca e retira um pequeno envelope de plástico, conterá um fragmento de papel onde deixarei escrito, "sim" ou "não", no primeiro caso, significa que morri sabendo, portanto terei morrido em paz, por outro lado, se estiver escrita a palavra "não", quero que continues investigando até descobrir tudo, e então, destrói os desgraçados, tu me prometes? Mas... Não tem "mas", tu me prometes? Sim, pode ficar em paz, farei como disseste, prometeu a Prometeu, Epimeteu.

 Exalou o último suspiro um mês e quinze dias depois desta conversa Poucos minutos depois Pandora e o cunhado se encontraram ao lado do leito do defunto. Tu te livraste da caixa? Sim, não te preocupes...

25/07/2005

 


Blog EntryJul 23, '05 8:39 PM
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Ray Silveira

 

Alto magro, pele muito branca, cabelo arruivado e uma espécie de sorriso forçado, que mais parecia um esgar. Óculos de aro fino, com lentes claras e redondas. Assim apareceu no primeiro dia de aulas da faculdade. Uma personalidade  singular. A princípio, só tinha  sobrenome, pois até mesmo o nome ele sonegava aos colegas. Chamava-se Hunger. Era uma pessoa arredia, solitária, deslocada de qualquer uma das rodinhas, que costumavam se formar entre companheiros de escola. Durante todo o curso de Informática deve ter trocado  meia dúzia de palavras, se tanto, mas, ainda assim, sua voz  me fascinava e me enchia de curiosidade. Falava  sussurrando, como um espião que escondesse segredos de estado.

 

Nunca foi visto com um livro, lendo, ou pelo menos segurando. Nas aulas parecia dormir o tempo inteiro. Numa posição tão insólita, que era impossível definir: alguma coisa entre o sentado e o deitado. Digamos que permanecia enrodilhado sobre o assento. Não fazia anotações, de qualquer espécie. Sequer possuía um caderno ou um simples pedaço de papel. E aquele  sorriso indecifrável poderia ser interpretado como manifestação de ironia,  não  fosse a sua exagerada timidez. Passou a ser ignorado, quando concluíram que seria pura perda de tempo interrogá-lo, ou tentar qualquer tipo de comunicação. Inexplicavelmente, contrariando todas as expectativas, era o primeiro da classe. Isto foi o principal motivo da minha atração por ele. Tinha certeza de que aquela atitude  era apenas a ponta de um iceberg. Havia muito mistério mergulhado naquele oceano de esquisitices.

 

 De todas as estranhezas, a que mais causava indagação e comentários era a discrepância entre sua magreza e uma voracidade assustadora. Comia com pressa, com avidez, como se, do alimento, lhe viesse alguma coisa mais que a saciedade.  E, no entanto, nem bem terminava de se alimentar, disparava rumo ao toalete. Na certa ia vomitar. Esta era a única explicação plausível para aquele apetite descomunal paradoxalmente associado àquela figura esquálida. Em síntese,  era evidente  que sofria de bulemia. O pobre nunca estava em paz. Essa compulsão  fazia com que delegasse convites e se escondesse pelos cantos,   humilhado. Eu cada vez mais me interessava e desejava entender as razões de seu sofrimento. Mas ele era impenetrável e arredio.

 

Depois de  formado,  evitava restaurantes e lanchonetes. Quando raramente o fazia, por absoluta imposição profissional, sua correria  gerava curiosidade. Se  estivesse com alguém,  por constrangimento não disparava para o banheiro. Mas jamais se levantava junto com a pessoa.  “Vou ficar esperando um amigo com quem marquei um encontro”. “Estou adorando estas músicas”. “Sou fã deste conjunto e pretendo permanecer mais um pouco”, disfarçava. E ficava fazendo hora, até que o último cliente saísse. Depois,  chamava um garçom, pedia que um táxi viesse apanhá-lo na calçada do restaurante e saía em desabalada correria. Aos poucos, foi deixando de comer fora, até quase se isolar completamente. Pedia seus alimentos por telefone, fazia supermercado pela Internet.  Nunca saía. Dispensava qualquer trabalho, que não pudesse fazer em casa. Nem sei como se permitia trocar e-mails comigo, e atender algumas de minhas chamadas. Acho que eu era seu único vinculo com a humanidade.

 

Eu não me conformava com essa situação. Sempre fui uma mulher decidida e pragmática. Por isso resolvi tirar tudo isso a limpo. Numa noite de Natal soube que ele estaria, como sempre, sozinho e decidi ir visitá-lo. Apertei várias vezes a campainha e bati na  porta. Contou-me mais tarde, que quando me viu pelo olho mágico, entrou num terrível conflito. “Abra! Sou sua amiga. Só quero ajudá-lo”. E ele abriu. Conversamos durante várias horas. Com muito tato, levei-o, aos poucos, a  contar toda a verdade.

 

Soube que desde criança era tímido. Embora esfomeado, não tinha coragem de pedir comida.  Se não lembrassem dele passava fome, mesmo com todo aquele descomunal apetite. Às vezes roubava algum pedaço de bolo ou fruta, ou o que houvesse mais ao alcance da mão. Isso lhe dava arrepios de excitação, e o início de uma culpa, que carregaria a vida toda.  Culpa sem propósito, talvez em virtude de se achar feio e sem graça. Lembrava-se também da cozinheira, com aquela generosa bunda, fazendo inesquecíveis pastéis de queijo. Ou ainda, de como, eventualmente, a linda professorinha ternamente lhe oferecia um pedaço de goiabada, com aquelas mãos macias, que desenhavam arabescos no quadro negro, mesmo antes de ele aprender o significado deles.

 

Pouco mais velho, a prima judiava dele comendo pipocas, como se beijasse cada pedacinho do milho estourado. Então, quando sua sexualidade deveria se definir, desenvolveu  uma alteração mórbida de comportamento.  Um caso raro, já pesquisado inutilmente por médicos e psicólogos. Não sentia necessidade de conhecer mulher. Tanto, que se mantinha virgem. Em vez disso,   padecia  de um  fenômeno bizarro e  prodigioso: o prazer de comer vinha junto com uma intensa, incontrolável,   excitação sexual. Por incrível que pareça, ejaculava abundantemente a cada vez que se alimentava. Não dava para segurar. Era mais forte que ele. Explodia em generosos orgasmos, que inundavam suas roupas onde quer que ele estivesse.

 

 Essa confissão sofrida, essa entrega da sua fragilidade, quebrou as barreiras entre nós.  No final do relato, ambos choramos copiosamente e nos abraçamos. Eu tinha de ajudá-lo. Pedi que confiasse em mim . Que tentasse ficar sentado em sua poltrona, sem pensar em nada.  E me deixasse tomar umas providências. E fui explorar a casa, remexer em tudo,  conhecer seus livros, seus discos preferidos, reparei nos móveis, na decoração,  visitei o banheiro, a cozinha, a sortida despensa...Inventei. Cerca de três quartos de hora mais tarde chamei-o para o quarto.

 

Encontrou-me deitada e despida. No criado mudo, um champanhe para ajudar o clima. A cama, forrada de frescas folhas de alface. Meu corpo todo lambuzado de maionese, geléias e caramelos. A boca entregava  um figo em calda . Pequenas uvas rodeavam o bico dos seios. No umbigo um requintado patê de foie-gras. Minhas pernas para cima e entreabertas. Uma apetitosa cereja enfeitava-me a vagina. E uma azeitona enorme adornava o meu ânus que, por sua vez, se encontrava recheado de farofa...Eu era a própria imagem de uma perua. Só que  uma perua à Califórnia. Uma perua de Natal.

 


Blog EntryJul 22, '05 9:59 PM
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Ray Silveira

 

O que mais me impressiona na escritora Vânia Moreira Diniz não é a escrita. Isto não significa deixar de reconhecer a sua qualidade. Se ela não fosse uma excelente autora, há muito tempo já teria desistido. Pois ninguém é capaz de amar o seu trabalho se este não o valorizar. E ela escreve desde criança. É muito fácil, para um artista de verdade, cuidar da própria arte. Não carece sequer de “inspiração” como muita gente erroneamente supõe: basta disciplina; basta aplicação. Isto ela tem de sobra e é reconhecido por todos. Então, reitero: o que mais admiro nela não é a sua arte. Senão o zelo, o empenho e o amor como cuida da arte alheia.

 

Não conheço outro comportamento igual, a não ser entre raros filantropos. Seres predestinados. Homens e mulheres dedicados ao próximo. Não a estou chamando de santa. Não me caberia, nem seria oportuno. Mesmo porque conheço a vida de muitos santos. E nem todos cuidaram dos semelhantes. Do mesmo modo, conheci muitas pessoas altruístas, que sequer acreditavam em Deus. Por isso, para mim, a Vânia é uma fiel sacerdotisa da Literatura. Dela e dos outros.

 

Não sei se a comparação é de bom gosto. Mas, já lhe disse várias vezes. Assim como gilete é sinônimo de lâmina de barbear; brama, de cerveja; bombril, de esponja de aço; Getúlio de político e Papa, de santidade, o nome Vânia Moreira Diniz é sinônimo de Literatura. Uma afirmação fácil de comprovar e com a qual todos concordam. Então, penso ser mais do que sacerdotisa: seria uma espécie de “Violante do Céu” do século XXI.

 

Parece incrível, porém quem menos se beneficia disso é ela mesma. Quem mais sai ganhando com as suas obras é a própria cultura. Muita gente imagina ser o computador apenas um veículo de divulgação cultural e artística. Não é. É muito mais. A Internet – onde a sua atividade mais se destaca - é um mundo paralelo.  Pelo menos do ponto de vista literário, é um fim em si mesma. Por enquanto, a literatura é uma só. Insistir em dividi-la em real e virtual é mais do que maniqueísmo. É como querer ver um açougueiro separar, com sucesso, gêmeos xifópagos.

 

Depois da cultura, quem mais se beneficia com as realizações da Vânia, são os escritores. Muitas vezes não valorizamos devidamente o que nos dão de graça. Manter um site como o “Jornal Ecos” é apenas uma pequena parcela do seu esforço, mas poderá significar quase todo o prestígio de quem escreve lá. E talvez poucos reconheçam e agradeçam devidamente este imenso favor. A começar por quem escreve este texto.

 

Por último, mas não menos importante, quem mais lucra com o trabalho dela são as escritoras. Até o final da década de 1950 só existia, no Brasil, uma autora conhecida e consagrada: Raquel de Queiroz. Naquela mesma época, uma das maiores e melhores (senão a maior e melhor) bibliotecas cearenses era a do Seminário de Sobral, no norte do Estado, onde estudei interno durante três anos. Apesar dos meus doze, treze e catorze anos, freqüentava-a com alguma regularidade.

 

 É possível que lá existissem livros escritos por mulheres: eu nunca vi. Aliás, naquele tempo, nem me passava pela cabeça que alguma fosse capaz de escrever. E aquilo ficava despercebido, como se fosse uma coisa banal. Uma rotina tão insignificante quanto cortar as unhas. Nem se falava neste assunto. Se uma mulher anunciasse que ia publicar um livro, todo mundo desconfiaria de se tratar de piada. Hoje, graças à Internet e ao trabalho de pessoas como a escritora Vânia Moreira Diniz, as mulheres cada vez escrevem e publicam mais.

 

Terminei falando na escritora e não nos seus dois excelentes livros recém-publicados: “Pelos Caminhos da Vida” e “Pelos Caminhos da Alma”. Fiz isto de propósito. Sobre os livros, já falou muita gente mais capacitada do que eu. Sobre a pessoa da Vânia, duvido que já tenha falado alguém que a admire mais do que eu.

 

Fortaleza 22/07/2005


Blog EntryJul 19, '05 11:49 PM
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Atravessou a represa a nado. Nada o detinha. Dizem que estudou lá. Não é verdade. Morou... Viveu, no Asclepion de Trica, na Tessália. Os primeiros lampejos da consciência foram raios de luzes invisíveis. O primeiros sons foram gemidos. E o primeiro odor, o das emanações enjoativas dos miasmas. Descendente de Asclépio. Portanto, de Apolo e Coronide. Seu pai, o ontem. Mas poderia se chamar Macaon ou Polidário. O nome da mãe também se perdeu nas brumas de um passado remoto. Mas poderia ter sido, quem sabe, Hígia ou Panacéia.

O que menos importava era o bem-estar pessoal. Jamais possuíra casa própria, automóvel, roupas caras, bens de qualquer natureza. Doutor, minha mulher... Faz três dias que sofre. O menino tá com o braço do lado de fora. A parteira já puxou e nada... Era um boêmio, contudo a sua boêmia nunca foi obstáculo para sacrificar confortos, luxos e até a saúde em benefício dos doentes. Doutor, o canoeiro sumiu. Desculpe ter-lhe trazido até aqui. Não podemos atravessar. Seja o que Zeus quiser.

 

Mentira! Também estive em Tessália. Jamais o vi lá. Além disso, posso provar que foi em Mersenia onde Apolo e Arsione, filha de Leucipo, geraram Asclépio. Coronide apenas o amamentou... Também o vi tratando doentes. Tudo o que faz está errado. Todos os meus pacientes, com menos de um dia de internados, já tomam um consomê. Ele recomenda jejum absoluto.  Além disso, o procedimento corriqueiro do sacrifício noturno de animais, ainda utilizado em outros Asclepions, era vedado em Trica. Isto há muito tempo caiu em desuso. No entanto também o vi praticando... Nunca estudou na Tessália. Trata-se de um charlatão.

 

A nado. Com a roupa presa na cabeça, pelo cinto. A parturiente numa rede. Já não tinha forças para gritar. Emitia leves gemidos. Tomou-a nos próprios braços e estendeu no chão de piso morto... Tão morto quanto parecia estar o bebê cujo braço direito simulava um paio. Assim na espessura como na cor. Assim na Terra como no Céu, o pão nosso de cada dia nos dai hoje... Afastem-se por favor, continuem rezando, mas não se aproximem.

 

Falso médico. Comecei os meus estudos em Epidauro e os concluí em Cós. São os dois melhores. Talvez o Asclepion de Pergamon possa ser equiparado ao de lá, pois foi um dos nossos maiores Asclepíades, o seu criador e orientador. Em Cós, a influência de Asclépio se dá indiretamente. Ele ilumina os nossos Asclepíades. Desnessária a sua presença. Se ele permite que se reze a oração ensinada pelo homem da cruz é um traidor dos deuses. Devia se aposentar. Estou sendo tolerante: devia morrer.

 

Não esperou que fervessem água. A criança comprimiu-lhe levemente o indicador. Portanto, vivia. Álcool não havia. Apenas água e um pedaço de sabão. Introduziu a mão de volta para o lugar de onde não deveria ter saído. Esta manobra não é fácil num Asclepion. Imagine-se num chão de piso morto. Cãibras na mão direita. Mão de parteiro, agora sendo introduzida no útero a procura do bom pé. Não importava: poderia ser também o mau.

 

Lembrou-se dos conselhos do mestre: “Aplicarei os procedimentos que aprendi para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém. A ninguém darei por comprazer, nem remédio mortal nem um conselho que induza a perda. Do mesmo modo não darei a nenhuma mulher remédio abortivo nem praticarei manobras com o propósito de matar o concepto”. Lembrou-se, apenas. Não importava mais se estava ou não seguindo aqueles ensinamentos. Nem Asclépio, nem o próprio Zeus o impediriam de praticar... Era tudo ou nada.

 

Os Asclepions se julgam donos da verdade. Cada Asclepíade é vaidoso e não sabe nada. E por isso mesmo vê no outro, também um ignorante. São odres cheios de vento. Se fossem honestos e humildes o suficiente para reconhecer que nada sabem, aprenderiam mais e ganhariam o respeito dos outros homens. “Quem és tu, ó fanfarrão, para ousares blasfemar contra os deuses?”

 

Não escutava. Pegou um pé. Qualquer pé. Não se deteve um instante para identificar se era o bom ou o mau. Naquele momento, bom era aquela mulher viva. Se possível, também a criança. O que seria muito improvável. Tracionou até a cabeça se fixar sob a sínfise da pube. Mais uma vez usou a mão de parteiro. Fazendo do dedo indicador uma chupeta, introduziu na boca do feto e aprofundou até a base da língua. E descolou a cabeça...

 

Atrevi-me por um motivo simples: sou um verdadeiro Asclepíade. Pertenço a uma família cujas origens se confundem com as de Macaon e Polidário, que acompanharam os nossos guerreiros na campanha contra Tróia. Sei a verdadeira história do nosso deus, Asclépio. Não media sacrifícios para cuidar de um doente. Conheço a sua luta heróica na expedição dos Argonautas e na caçada ao javali de Cálidon. Apesar disso, reconheço as minhas limitações. Mas a natureza desconhece as dela... E os deuses também choraram...

 

19/07/2005

 


Blog EntryJul 16, '05 8:34 PM
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Ray  Silveira

 

Vontade de ser um pesadelo. Não sou. Está lá. Tangível como um urubu: esclerose múltipla. A maior parte da vida pagando juros sobre juros. Agora estou quitando o principal. Da dívida contraída ao escolher esta profissão. Sei o que me espera. Antes, pensava na preguiça dos séculos. Doravante, pensarei no sobressalto das horas. Por enquanto, só sinto dormência e tonturas. E uma leve turvação na vista. Aos poucos virá a cegueira. E com ela, uma legião de companheiros. Será um cortejo de males, como se o meu corpo tivesse sido condenado a desempenhar o papel de oniservente cobaia. Até o instante final.

 

Experimentarei tristezas tão profundas que o mais triste dos homens se rejubilaria por não sentir, se acaso pudesse imaginá-las. Terei soluços de riso entremeados de convulsões de choro. Sem causa aparente.  Falarei lentamente, escandindo as sílabas. Quando tiver sede, poucos terão paciência para me escutar pedir um copo d’água. Tremores serão imperativos. Tremerei porque quero, mas sem querer tremer. E quanto mais tremores, mais tremer hei de querer, não querendo. Como alguém se coçando até a pele virar carne.

 

Os músculos enrijecerão. Qualquer movimento, um tormento. Escovar os dentes, tão penoso quanto levantar cem quilos. Caminhar seis metros, tão difícil quanto palmilhar seis léguas. A marcha será atáxica; com pouca, ou nenhuma coordenação motora. Ao tentar ir para a direita, seguirei, sem querer, para a esquerda. Meus pés ceifarão o nada, assim como nada deterá a segadura da minha vida.  Toques de quaisquer objetos provocarão reações dolorosas. Se sentir frio, talvez prefira tolerá-lo, a entrar em contato com um cobertor. Urinarei involuntariamente e não urinarei ao ter vontade. E nunca mais sentirei sequer o doce desejo de desejar uma mulher.

 

Depois de cogitar sobre isso, uma autocompaixão imensa me invadiu. E, logo a seguir, uma idéia brotou do nada: Abreviar aquilo. Pois estava indo morrer-me, mas, ao mesmo tempo, preste a ressuscitar-me para a morte. E tudo o quanto sabia que ia acontecer, parecia já estar acontecendo. Presente e futuro simultâneos. Então, devia poupar, a mim e a terceiros, daquela gangorra de falecimentos e semi-ressurreições sucessivos. Nenhum homem é tão sinistro que mereça o castigo de morrer mais de uma vez.

 

Pensei que fosse fácil. Um ato semelhante à decisão de viajar. Certa vez, quando exportava (e esbanjava) saúde, escrevi: “Ora, a morte é a última e mais previsível conseqüência de estar vivo. Contudo, é curiosa a razão pela qual infunde tanto pavor. Só se teme a morte pelo mesmo motivo que se suporta a dor de viver: a perspectiva de novas realizações; de novos ideais. Não sinto este medo. Desdenho os calafrios de terror ante a aniquilação total. Nada poderá ser pior que viver. Se citassem uma única razão para continuar existindo, desistiria de me matar. A vida pode ser considerada um acaso inútil. Ou então, um sistema físico-químico destinado a aumentar o caos energético do universo".

 

"Na verdade, a existência humana é muito mais desprovida de sentido e mais plena de sofrimentos do que a dos bichos. A consciência dos seres ditos evoluídos, longe de os tornar mais perfeitos, só serve para infundir a consciência da própria finitude. Em outras palavras, o homem é o único animal que reconhece o próprio fim. E a esse castigo há quem dê o nome de ‘evolução’.”

 

Quanto devaneio! Quando mais careci dessas idéias, menos elas me acudiram. Quando julguei estar disposto a cometer o ato mais digno que se poderia esperar de um homem na minha condição, fraquejei. E uma miserável vontade de viver, vergonhosamente, me envolveu. E eu, que amava o feio, passei a endeusar o belo. Eu, que delirava de prazer no meio das multidões alvoroçadas dos shoppings, durante agitados festivais, passei a me comover diante do canto de um único passarinho. Havia uma desconveniência de viver proporcional à vantagem de morrer. Então, se instalou o verdadeiro pesadelo. A necessidade de uma gota de ilusão num mar de desenganos. A coexistência de dois estímulos disparando reações mutuamente excludentes.

 

Perambulei por consultórios, pagando caro, em troca de uma esmola de esperança. Mendigava uma palavra de falsa verdade, ainda que tivesse convicção da mentira. Ansiava por um prognóstico favorável, embora tivesse estudado, sobre a doença, tudo o quanto encontrei. Nos meus livros, nas revistas, na Internet... Em todas as bibliotecas da Terra, do céu e do inferno. E o resultado foi um só: “Curso progressivamente decadente e sem remissões. Expectativa de viver pouco mais de um ou dois anos”.

 

Era tarde, mas não tarde demais. Numa tarde de domingo, tomei, afinal, a decisão que cedo deveria ter tomado. Costumava ser o primeiro nas competições de tiro ao alvo. Entretanto, tanto desempenho num campeão covarde é milhares de vezes menor do que nenhum, num herói derrotado. Não mantive o cano com firmeza suficiente e a bala resvalou. Fui operado. Dizem que estou salvo. Salvo, de quê? Salvo se for da falta de vergonha. Há pouco recebi a visita do meu único filho. Embriagado, como sempre. “E aí, velho... Nem pra acabar contigo tu serviste, cara...”.

 

16/07/2005

 

 

 

 


Blog EntryJul 6, '05 11:37 PM
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Sonhava. Ferido numa batalha, um obus lhe atingira, em cheio, o ventre. Havia duas diferenças quanto à realidade: O projétil perpassava-lhe lentamente as entranhas. E, ao invés de penetrar, saía. Não era um sonho; era meio sonho. Não houve batalha, nem obus. Mas, ao despertar, percebeu que a metade dos intestinos se encontrava do lado de fora.

 

Quando criança, gostava de ver a cozinheira sacrificar e eviscerar as aves. Essa segunda etapa do processo lhe era especialmente fascinante. Mais tarde, quando foi estudante de medicina, permutava com colegas uma vaga na sala de operações por um ingresso no anfiteatro de autópsias. Como colegiais, negociando as partes mais interessantes do lanche. Sentia-se realizado, quando o professor o entregava o escapelo e, antes o presenteava do que ordenava: “Faça!” E ele fazia, com enorme prazer.

 

Na presença de um corpo em decomposição, enxergava poesia. E se sentia diante de uma obra de arte. Uma tela de Rembrandt. Uma escultura de Rodin. Um poema de Petrarca. E exercia aquela tarefa com reverência, respeito e devoção. Como um sacerdote virtuoso a celebrar o ato mais solene de sua religião. Primeiro, se ajoelhava. Depois, persignava-se e se benzia. As sobras da morte, quanto mais deterioradas, mais respeito lhe infundiam.

 

Naquele defunto, a barriga há muito tempo já tinha estourado e as tripas luziam e estufavam pra cima. Para ele, tratava-se de coloridos enfeites natalinos. As moscas-varejeiras eram suas convidadas de honra. E enxameavam como abelhas numa colméia. A inchação era tamanha que não havia mais forma de gente. Mas se sentia como o Miguel Ângelo se preparando para esculpir o Cristo da “Pietá”. De cada orifício escorriam torrentes de líquidos de variadas tonalidades. Os de cores mais escuras, lembravam-lhe o castanho das telas de Münch. Os amarelos ocres, que para outras pessoas passavam por gemas de milhares de ovos podres, pareciam-lhe tintas prestes a ser usadas por Van Gogh para criar os seus girassóis. Os humores fétidos e purulentos, verde-musgo e verde-negro como a bile da atrabílis, lembravam-lhe as águas e a vegetação semiliquefeita do riacho “La Grenouillère”, a cujas margens Monet pintou a sua belíssima tela.

 

Portanto, sempre fora o sujeito. Agora era o objeto. Só que estava vivo. Dois dias antes, entremeados por noite e meia sem dormir, tinha sido operado de um aneurisma da aorta. A barriga fora cortada num altabaixo que começava na ponta da espinhela e ia até o púbis. A cavidade foi aberta. Mal a artéria foi tocada, o segmento dilatado se rompeu. Foram quatro xeringadas fortes. A primeira atingiu o teto, quatro metros acima. A segunda foi uma ducha morna na cara do doutor que estava operando. A terceira subiu até a altura do peito do primeiro auxiliar, que desviou a cabeça. A quarta ainda ameaçou acompanhar, mas arriou como uma cobra preparada para o bote e acaba levando uma paulada. Ainda assim, era muito sangue. Não dava pra ver nada, a não ser aquele mar vermelho. Duas dúzias de toalhas encharcadas. Quanto mais enxugavam, mais ajuntava. Parecia uma torneira estrompada. Para abreviar, foram seis horas e quarenta e cinco minutos cravados de “tourada”, desde o primeiro talho até o último ponto.

 

Não sabia de nada. Salvo que estava salvo. Fora de perigo. Quando acordou e viu as tripas saindo pelo buraco da operação, ainda achava que estaria sonhando. E que agora o seu corpo era um cadáver pronto para ele mesmo transformar em miúdos. Completou o desmanche do trabalho dos médicos e o da prensa abdominal, rasgando o que ainda estava cosido e expondo o que restava de intestinos. Envolveu tudo com o lençol e girou várias vezes pelo tronco. Depois, susteve e tracionou pra cima, o pedúnculo, com a mão esquerda. Esticou a direita até encontrar a gaveta do criado mudo, onde guardava os apetrechos de barbear. Tateou, e acabou encontrando a navalha. Abriu, e se preparou para cortar de um só golpe...

 

05/07/2005

 

 


Blog EntryJun 28, '05 8:36 AM
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Nasci em Rapa-Nui. Sou filho de Moais. Minha mãe foi pulverizada sob o jugo de Uwala Waili, o Tirano. Meu pai não viveu. Sobrevivemos. Tentaram fazer com ele como fizeram com minha mãe, mas não foram capazes. Pesava demais. Ainda assim, deixaram-no avariado para sempre. Pessoas estranhas invadiram a Ilha e nos trouxeram para cá. Os tormentos do meu pai secaram-lhe tanto a alma que o coração virou fruto de mandacaru. E o corpo de pedra, um imenso cacto recoberto de espinhos. Com uma diferença: eram invertidos. E em vez de protegerem, perfuravam-no.

 

Jamais conheceu qualquer prazer. Exceto quando, picado por insetos venenosos, sua seiva se impregnava de estupefacientes e circulava na cabeça, antes maltratada pela dor. Logo cessava o efeito. E os cardos pontiagudos, aguçados pela abstinência, o dilaceravam ainda mais. No entanto, sentia um medo terrível de morrer. Que estranho apego à vida seria esse, cujo nome inventado pelos homens é tão pequeno, mas expressa uma necessidade tão intensa? "Instinto de vida”? Mal pode ser comparado a duas lágrimas salgadas diluídas naquele oceano de angústias.

 

Como filho de Moais, também sou feito de pedras. Mesmo tendo sido cinzelado a partir das rochas mais resistentes, tinha tudo para ter virado pó, como minha mãe. Ou um vegetal igual ao meu pai. A deusa Indra é minha madrinha. E me protege. Descontado o desgaste natural causado pelo tempo, estou íntegro como meus irmãos de Rapa Nui. A deusa providenciou para que meu corpo fosse esculpido num granito especial, vomitado pelo vulcão Rano Raraku, perto do qual vim a existir. Além disso, toda vez que sou ameaçado, minha madrinha envia emissários para me defender.

 

Apesar da resistência pétrea e da proteção de Indra, conduzo minha própria vida. A se esbater como uma borboleta, nas mãos semicerradas em forma de conchas. Desconfio que, embora sendo feito de pedras o meu corpo, trago as mãos acolchoadas pelo veludo dos ternos sentimentos. Talvez a borboleta se sinta antes protegida do que ameaçada. Ou não. Quem sabe, sou eu mesmo a retê-la, nas minhas mãos rochosas. E ela, apesar do desespero, não logra escapar...

 

Travei muitas batalhas. Todas em legítima defesa.  Mal pus os pés neste solo, contraí um inimigo e este tentou me escorraçar. Dizia que Moais não foram feitos para conviver com gente. Então, acertou-me um golpe de picareta no meio da testa. Estremeci, mas não caí. Nem revidei. Embora ainda traga a cicatriz, consegui sobreviver. Enquanto ele já se preparava para desferir mais um golpe, surgiram no céu objetos luminosos que subiam e
desciam. Foram trazidos por criaturas voadoras, com os olhos imóveis, do tamanho de focinhos de focas. Eram emissários da deusa. Então, um deles se aproximou e me disse: "Indra te envia, para a vitória, esta carruagem afortunada, exterminadora de inimigos, e o grande arco feito por sua mão, e esta couraça de fogo, e estas flechas feitas de raios de Sol. E esta lança de ferro reluzente”. O adversário bateu em retirada.

 

É curioso: ao contrário do acontecido a Laoconte, foram duas serpentes que socorreram, a mim e a meus filhos, durante uma das mais ferozes batalhas. Acredito que isto só aconteceu porque nunca usei a minha lança para sondar ventres de cavalos de madeira, como fez o sacerdote de Apolo. Provavelmente à cata de fáceis tesouros. Não! Tirante a proteção de Indra, nada me foi dado. Tudo foi conquistado a duras penas...  Ou a duras pedras. Como aquelas de onde fui tirado.

 

27/06/2005

 

 

 



 

 

 

 

 

 

 

 


Blog EntryJun 23, '05 2:12 PM
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Raymundo Silveira

 

“Se insistir em não me atender, pulo agora. Não tenho nada a perder. Você, sim. E não tente me enganar depois. Do contrário, vou à imprensa e ponho a boca no trombone...”.

 

O vento soprava cada vez mais forte, esvoaçando-lhe os cabelos e alimentando as chamas do desespero. Estava disposta a morrer. A única dúvida era se seria uma morte rápida. Uma reprise do passado fluía em turbilhões como se as imagens estivessem sendo projetadas por uma câmera em rotação acelerada. Em menos de dois minutos reviveu a infância miserável, a fome e o desabrigo quando deixou a casa, aos catorze anos, por não suportar mais o pai. Além de bêbado, abusava dela desde os oito anos, quando lhe morrera a mãe. Agora, tinha vinte e três, dois namorados e um embrião.

 

A princípio não acreditou. “Impossível. Eu mesmo lhe dava as pílulas. Via tomá-las”. “Naquele mês, esqueci...”. “Não acredito. Farei o Beta pessoalmente. Não confio em ninguém. Estenda o braço...”

 

 Fitava o interior do consultório e a avenida. Sentado à escrivaninha, um homem meio calvo, de mais ou menos cinqüenta e cinco anos. A máscara do terror encobria os detalhes da real fisionomia. Equilibrava-se, a custo, sobre a sacada. Cento e cinqüenta metros abaixo, os automóveis pareciam brinquedos. As pessoas, um formigueiro. E a imagem virtual do próprio corpo comprimido, rente ao asfalto, era o motivo aparente da indecisão.

 

Uma self-made-woman. Fizera de tudo. Chegou a Fortaleza com a pele do corpo. Pois não se podia chamar roupa, àqueles andrajos. Foi empregada doméstica, faxineira numa empresa privada e rameira numa privada pública. Quatro abortos provocados. A última gravidez foi numa das trompas. Teve sérias complicações. Ainda assim, não parava de estudar. Dedicara-se às línguas estrangeiras. “Pelo amor de Deus, desça daí”, conseguia balbuciar a voz trêmula do careca. “Só se prometer que vai ficar comigo. Não exijo que abandone a família. Mas quero ser sua família também. Tenho direito a isso...”. “Havíamos combinado diferente. Faria o aborto, ficaria com uma boa mesada e...”. “Mudei de idéia. Sou gente, não mercadoria. Além de tudo, quero este filho. Você mesmo declarou ser improvável outra gravidez. Talvez seja esta a minha última chance de ser mãe. Se deixasse passar, jamais me perdoaria”.

 

Fluente em três idiomas, além da língua materna, não foi tão difícil a ascensão à classe média. Não precisava mais vender o corpo. Nem este queria ser vendido. Mas sentia saudades da promiscuidade. E ela o atendia muito discretamente. Os amigos sabiam pouco do seu presente e nada do passado. Alguns suspeitavam do caso com o doutor. Porém, não desconfiavam de que havia outros. Nem os próprios outros.

 

Enquanto esperava a decisão do namorado, mal podia acreditar no absurdo. Ela própria ignorava quem era o pai do seu filho. Se aquele homem lívido para quem olhava agora, ou o oficial do exército com quem também transara várias vezes ao dia, durante a época provável da fecundação, há mais ou menos dez semanas. A convicção dessa ignorância foi a gota d’água. Preferia morrer a fazer mais um aborto. Ou vir a ser mãe de alguém cujo pai nunca existiria. Pior: poderia ser fulano ou sicrano... Quando crescesse, não ia perdoá-la. Aquele homem desesperado foi o escolhido. Detinha mais recursos. O oficial seria um eterno assalariado. Precisava garantir o seu futuro. E, sobretudo, o da criança.

 

O lusco-fusco do ocaso já anunciava que aquele tormentoso dia de amante já não era dia. E muito menos diamante. Estava preste a se transformar, isto sim, em noite de carvão. Encontrava-se à beira do pânico. “Desça, eu aceito”. “Pois pegue o telefone e conte tudo pra sua mulher”. “Seja razoável. Acabou de dizer que poderia ficar com a minha família... Ela jamais aceitaria se soubesse”.

 

Primeiro, pensou no impacto da explosão da bomba. Era médico, ginecologista. Aquele escândalo seria o fim da sua carreira. Mas não era só. Tinha um casamento estável.  A relação já durava mais de vinte e nove anos. Havia uma filha fazendo residência médica. Noiva de colega. Sonhava em ampliar a clínica. Transformá-la num hospital de médio porte. A moça e o genro assumiriam a parte técnica. Ficaria só no controle administrativo. Via tudo isto indo por águas abaixo.

 

De repente, teve uma idéia. E se a deixasse saltar? Quem sabe, até ajudaria um pouco com um empurrãozinho. Não estaria livre de uma vez por todas? Logo ponderou: E as investigações, o interrogatório, a autópsia, a constatação da gravidez? E o golpe de misericórdia: o maldito DNA?

 

Acabou concordando, depois de convencê-la não ser preciso falar com a esposa. Ficasse tranqüila. Assumiria tudo. Paternidade e todas as suas implicações jurídicas e sociais. Estariam próximos, sim. Todavia, não precisava ninguém saber. Fortaleza era uma metrópole. Haveria meios materiais e emocionais de ter e manter duas famílias. Não era o primeiro. Havia diversos casos, inclusive entre os próprios colegas.

 

Mais tarde surgiram rumores. Telefonemas anônimos. Os amigos ficaram sabendo e lhe contaram tudo. O passado da namorada veio à tona. A pobreza, a orfandade o incesto, a prostituição. E a existência de vários namorados simultâneos, já depois da ascensão social.

 

Consultou um advogado amigo. A justiça impunha. Se acaso não se submetesse ao teste de DNA, seria condenado a assumir a paternidade de qualquer maneira. Preferiu assim. Seria responsabilizado judicialmente, mas ficaria sempre a dúvida. Perante a sociedade, as clientes. Sobretudo perante a família: a esposa, a filha e o noivo. Poderia alegar, até o final dos seus dias que era inocente. Havia cem por cento de certeza de o teste ser positivo. Era médico. Conhecia o período fértil de uma mulher. Dormiram juntos. Nenhuma dúvida: o filho era dele. Jamais correria o risco de se submeter ao exame. Ninguém precisava ter conhecimento jurídico, nem ser um latinista para conhecer a velha máxima: In dubio pro reu. Pelo menos no “código civil” das suas conveniências.

 

Quanta ironia! Sempre adorou ler o “Dom Casmurro”. Torcia para Capitu. Ainda que fosse culpada, merecia ser perdoada. Era mulher. Já sofrera bastante. Pagou mais do que devia pelo erro... Se acaso o tivesse cometido. Agora não havia como não torcer contra a amante. Sua situação era oposta à de Bentinho: não tinha a menor dúvida de que era o pai. Apenas não queria sê-lo. Preferia que houvesse um “Escobar” qualquer que assumisse incondicionalmente a paternidade.

 

Quanta fantasia! Mesmo que doasse a metade dos seus bens, ninguém descascaria aquele abacaxi. Ao mesmo tempo, sentia remorsos. Um homem maduro, sensato... Deixar-se dominar pelos instintos. Acreditava que era experiente. O que era a experiência senão admitir os erros do passado? Para que servem os anos, afinal? Ademais, tinha caído numa arapuca. Havia como saber se ela estaria tomando as pílulas. Conhecia técnicas modernas capazes de detectar até a hora da ovulação. Confiou. Não imaginava que se atrevesse. Tantos outros recursos contraceptivos... Engravidara de propósito. Para comprometê-lo. Para acabar com tudo.

 

Contudo, teve de se contentar apenas em não atender a exigência mais extravagante: ir morar com ela; constituir outra família. E havia também a chance de que os familiares e as clientes nunca soubessem de nada. Bastava o processo correr sem litígio. Decerto, haveria o risco de algum dia a esposa exigir ver o teste. Não lhe era difícil encontrar, numa outra capital, um laboratório disposto a vender, por um bom preço, um resultado de exame de DNA falsamente negativo, só para inglês (ou brasileira ingênua) ver. Obviamente, depois de a sentença ter transitado em julgado.

 

Mas o “Escobar” existia, de fato. Só que nunca apareceu.

 

23/06/2005

 

 

 

 

 

 


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